Bruno Gomes

Bruno Gomes

Jornalista

OPINIÃO

Eletrónica: Bom ou Mau?

A categoria rainha MotoGP está dominada pela eletrónica. Mas será isso bom ou mau para a competição e para o espetáculo?

andardemoto.pt @ 24-5-2021 12:49:09 - Bruno Gomes

Esta é uma discussão que já vem de trás. Há muitos anos que os fãs, e mesmo a comunidade de pilotos, discute se a evolução e introdução das ajudas eletrónicas nas motos de competição é uma coisa boa ou má.

E não é só na categoria rainha MotoGP que vemos a eletrónica ser o alvo das atenções. Veja-se o caso do Mundial Superbike, em que as motos derivam dos modelos de série, carregados de ajudas eletrónicas.

A discussão sobre este tema voltou a ganhar destaque recentemente depois de Carl Fogarty ter dito publicamente que a eletrónica está tão evoluída que é difícil entender quem é o melhor piloto. A moto é que faz tudo, na teoria do “King”, várias vezes campeão de Superbike.

Depois foi Casey Stoner que, numa rara entrevista em que mantém o seu estilo habitual de dizer abertamente aquilo que pensa, referir que não gosta da eletrónica que faz a gestão da moto com acelerador aberto a fundo. “Rolling Stoner” foi até mais longe e apelidou as recentes Ducati de MotoGP como “aberrações visuais” devido às asas aerodinâmicas. Mas isso já é conversa para outra crónica. Aqui centramo-nos apenas na eletrónica.


Atualmente o piloto apenas tem de acelerar a fundo, e esperar que a eletrónica faça o seu trabalho. Dizem alguns dos antigos campeões de Superbike e MotoGP.

Para mim fica claro que estes dois grandes campeões querem ver corridas mais puras no sentido que será o piloto a controlar a moto e não a moto a controlar o piloto. Querem que o piloto se adapte à moto e não o contrário.

Nos tempos do “antigamente”, como se costuma dizer, se calhar os pilotos da categoria rainha davam mais espetáculo aos comandos das indomáveis 500 GP ou mesmo nas primeiras 990 cc de MotoGP, com as suas motos em longas derrapagens, pneus traseiros a largar fumo branco enquanto procuravam, desesperadamente, agarrar-se ao asfalto à procura de tração que pura e simplesmente não existia.

Sim, em termos de espetáculo visual eram corridas mais interessantes. Mas no fim dessas corridas os pilotos, mesmo os de topo, terminavam muitas vezes separados por longas distâncias. A competição não era tão renhida.



Por isso, será que nós estamos preparados para o resultado de utilizar menos ajudas eletrónicas?

Penso que não. Como seguidor do fenómeno desportivo de duas rodas, e como jornalista especializado na área, não posso deixar de ficar satisfeito com o facto dos fabricantes utilizarem as suas tecnologias mais avançadas na competição. Seja em MotoGP, seja em Superbike.

E a chegada da centralina única da Magneti Marelli veio equilbrar muito a competição. Podemos chegar ao ponto de afirmar que é um equilíbrio artificial, pois a eletrónica, pelo menos a base, é igual para todos e por isso há fabricantes que estão limitados naquilo que podem fazer nas suas motos a nível da eletrónica.

Mas a realidade é que a chegada de pacotes eletrónicos cada vez mais evoluídos permitiu garantir corridas mais renhidas, lutas mais intensas, e um espetáculo que penso que está num nível muito elevado. E mesmo aqueles que defendem o regresso ao tempo do antigamente, sem eletrónica, têm de admitir isto.


E antes de criticarmos os fabricantes pelo uso destas tecnologias, temos todos de ter a consciência de que foram os avanços realizados nas ajudas eletrónicas que levaram a que hoje em dia as motos que todos podemos comprar no concessionário, cada vez mais potentes, estejam equipadas com aquelas plataformas de medição de inércia que fazem maravilhas e que as tornam tão eficientes e seguras.

Hoje em dia assistimos a corridas bastante mais renhidas devido à eletrónica. Alguém se questiona se o Miguel Oliveira, ou o Jack Miller, ou ainda o Fabio Quartararo, só para dar alguns exemplos, são pilotos menos talentosos apenas porque estão aos comandos de motos com muitas ajudas eletrónicas?

Penso que ninguém pode dizer que são menos talentosos por isso. E, no entanto, há quem acredite que estamos a caminhar na direção errada.



É a atual eletrónica (entre outras coisas) que permite assistirmos ao domingo a corridas de MotoGP em que os dez primeiros ficam separados por cerca de 10 segundos, ou pouco mais que isso.

E será que ficamos a pensar na eletrónica enquanto vemos a corrida com a adrenalina no máximo? Ou será que quando acaba a corrida estamos satisfeitos?

Eu fico satisfeito. E pelas reações dos fãs, vejo que também eles estão satisfeitos. Não me parece que todos nós aceitemos que agora se reduza a evolução tecnológica. A eletrónica veio para ficar. E ainda bem!

andardemoto.pt @ 24-5-2021 12:49:09 - Bruno Gomes


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