ČZ 175, type 450: a moto do Avô Jacinto

Depois de no mês passado termos apresentado a muito apreciada e sempre desejada Sachs V5, mais especificamente na sua variante Lotus Special, vamos agora, pela primeira vez nestas crónicas, até à Europa do Leste. 

andardemoto.pt @ 5-10-2026 17:00:00 - Texto: Pedro Pereira

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Do outro lado da Cortina de Ferro nasceu a ČZ 175, type 450, uma simpática moto, com motor a 2 tempos, que ainda hoje se vai encontrando em Portugal.

Esta moto é um produto ainda dos tempos da Guerra Fria, vinda da Checoslováquia (hoje República Checa). Partilha boa parte dos componentes com outra produção também do Leste Europeu e igualmente possível de encontrar em Portugal, ou seja, a Jawa, marca que recentemente foi “ressuscitada” pelo grupo indiano Mahindra.

Este bonito exemplar é de 1967, é nacional e está num estado muito interessante, apesar de alguns detalhes não originais e da sua curiosa história com um final feliz.

Ainda na década de 60 foi adquirida pelo Avô Jacinto que fazia dela o seu meio de transporte diário, mas mais tarde, fruto de várias vicissitudes, acabou por ser encostada e assim ficou muito tempo (demasiado tempo, mas felizmente não exposta aos rigores do clima, tendo estado sempre guardada sobre tecto) até que o seu neto “por afinidade” achou que era altura de lhe dar uma nova vida e de devolver a glória perdida a esta ČZ 175, type 450.

Foi um trabalho demorado e complexo até porque faltavam já várias peças e outras estavam em muito mau estado e foi necessário bater a muitas portas para ir conseguindo juntar todas as peças do puzzle. Curiosamente, ainda hoje são produzidas parte das peças na sua terra natal e é menos complicado do que possa parecer importar as peças, até porque ambos os países pertencem à União Europeia, sendo um dos exemplos o escape que é novo e lhe assenta muito bem.

Um pouco de contextualização

A ČZ (Česká Zbrojovka) foi fundada em 1919, em Strakonice, logo após o fim da Primeira Guerra Mundial como, imagine-se, fabricante de armas, algo no mínimo curioso depois de um conflito tão sangrento, mas previsível!


Só já no início da década de 30, numa tentativa de diversificação do negócio, surgiram primeiro as bicicletas e depois as motos, sendo que rapidamente se transformou no maior fabricante de motos da Checoslováquia. Como em tantos outros casos, veio a guerra, mais uma, e tudo mudou!

Após o final do conflito a marca foi nacionalizada e ocorreu um processo de “junção” com a Jawa, mas essa realidade coincidiu com a “explosão”, no bom sentido das duas marcas, com forte aposta nos motores de ciclo a dois tempos, na inovação, na competição e nas exportações para diferentes latitudes, incluindo o nosso país.

Durante as décadas de 60 e 70 a ČZ, associada ou não diretamente à Jawa, conseguiu um palmarés incrível no motocross, tendo ganho 7 campeonatos mundiais e desafiando as pesadas e complexas motorizações a 4 tempos, nomeadamente britânicas. Nomes como Joel Robert e Viktor Arbekov ficaram com os seus nomes para sempre gravados no Olimpo do Motocross à conta destes feitos.

Mesmo ao nível dos Six Days Enduro os resultados também foram notáveis com um total de 15 vitórias entre o final da década de 40 e o início da de 80. O próprio regime via nestes resultados uma forma de propaganda e não cessava de a apoiar, além de ter uma forte componente exportadora que ajudava no equilíbrio das contas externas.

Motos como esta ČZ 175, type 450 eram, e continuam a ser, fáceis de conduzir, muito robustas, podiam ser adquiridas por um preço relativamente acessível e não eram demasiado temperamentais, aguentando relativamente bem os maus tratos e a péssima qualidade da gasolina e do óleo da mistura.

Porém, ainda na década de 70, a chegada em força das motos japonesas veio mudar as regras do jogo e a ČZ não conseguiu resistir com os seus produtos já obsoletos e mesmo na competição as coisas estavam longe do fulgor de outrora e não havia forma de inverter a situação.


A marca ainda chegou a ser vendida à Cagiva no início da década de 90, mas era demasiado tarde e o próprio fabricante italiano também acabou por capitular. Ou seja, algo muito semelhante ao que aconteceu à nossa indústria nacional de duas rodas: concorrência nipónica, produtos ultrapassados, perda de interesse pelas duas rodas… nada de novo!

Uma estética arrebatadora

Para uma moto da década de 60, mas em que a base mecânica já tinha décadas, o que salta à vista nesta bonita Type 450 é o equilíbrio das formas, a escolha das cores, a abundância dos cromados e a graciosidade das suas proporções. Destaque para os seus curvilíneos guarda-lamas, as malas laterais, a envolvente guarda-corrente, a estética do próprio motor e as bandas laterais dos pneus em branco.

Não se evidenciava pelas prestações do modesto motor de 174 cc cuja potência máxima não chegava aos 15 cv e a velocidade de ponta dificilmente ia para além dos 100 km/h, mas o equilíbrio, a fiabilidade e resistência do conjunto, aliados a um preço ajustado faziam toda a diferença.

Se olharmos para a moto de frente, para as laterais ou mesmo para a traseira há harmonia na simplicidade a que não são alheias as várias superfícies cromadas, com destaque para o bonito depósito ou para o assento, neste caso em forma de guitarra e com um nível de conforto muito interessante para condutor e passageiro.

Era comum verem-se com um “porta-couves” gigante, que esta não tem e, diga-se em abono da verdade, mata um bocado a estética, mesmo que lhe dê um ganho significativo em termos de capacidade de carga, tal como o facto de haverem várias com side-car adaptados, o que reduzia ainda mais a performance do motor, já de si limitada de origem.

Sensações ao guiador

A primeira nota é que a posição de condução é mais próxima de uma moto atual do que seria de esperar. Vamos bem instalados e o corpo fica numa posição bastante relaxada, sendo que o guiador nos permite controlar facilmente a moto e as manetes e demais comandos estão bem posicionados e facilmente acessíveis.


Como muitos de vocês certamente sabem, o pedal de arranque tem uma dupla função, servindo também para as mudanças. Empurra-se ligeiramente para dentro e é possível levantar para colocar depois o motor em funcionamento e ao voltar à posição inicial está pronta para usar como alavanca das mudanças, convém é que a moto esteja sem nenhuma mudança engrenada.

Outra particularidade é que o padrão da caixa ainda era o habitual da época e ainda hoje muito associado à competição: primeira velocidade para cima e as restantes três para baixo! Nada de muito complicado, sendo que apenas para colocar a primeira mudança o movimento do pé maior que o esperado, mas depois a caixa é precisa, fácil e permite explorar bem o motor.

Os travões são pouco mais que abrandadores e com passageiro ou carga convém ter algum cuidado, mas para andar sozinho são suficientes, até porque a capacidade de curvar é apenas aceitável, as suspensões são limitadas e mesmo o quadro não quer que abusemos. É uma moto para fruição.

Ali vamos nós no simpático pop-pop-pop, sempre com um leve rasto azulado, fruto da mistura de óleo na gasolina. Já agora, obviamente que a mistura tem que ser feita ou despejada diretamente no depósito e não é de todo recomendado deixar lá a gasolina demasiado tempo. Ou seja, um bom argumento para andar regularmente com esta bela máquina que, quando passa, continua a fazer rodar cabeças e sorrisos de aprovação, como pude constatar durante a sessão fotográfica.

Notas finais


Assumo publicamente que nunca tinha conduzido nenhuma, embora conheça bem a prima maior, a Jawa 350. A ČZ 175, mesmo tendo performances inferiores, como seria de prever, torna-se mais ágil e fácil de conduzir e até mais divertida, já que o motor sobe mais rápido de rotação, se for espicaçado, e a sonoridade é mais aguda.


Olhadas durante algum tempo como patinhos feios, as ČZ são agora finalmente vistas como cisnes. O seu interesse junto da comunidade motociclística lusa tem vindo a aumentar paulatinamente, tal como os restauros e preços de venda ao público, havendo já vários exemplares em estado de concurso, fruto também da vinda de muitas peças novas do seu país natal.

O melhor que posso dizer sobre esta produção da Checoslováquia é que acabou por ir além do que estava à espera e agora percebo perfeitamente a paixão que o Paulo Malhó tem por ela (obrigado pelo empréstimo e por servir de modelo).O seu plano de percorrer com ela a Nacional 2 é uma excelente ideia, mais ainda porque será sempre em modo de passeio e sem pressas, como se espera daquela estrada e de uma moto como esta!

andardemoto.pt @ 5-10-2026 17:00:00 - Texto: Pedro Pereira


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