3.ª Etapa do Portugal de Lés-a-Lés 2026, com muito para oferecer, terminou em Vizela
Depois do inovador Passeio de Abertura, da etapa inicial que ligou Faro a Alcochete, da segunda etapa que foi até S. Pedro do Sul, só faltava a derradeira, rumo a Vizela, para fechar com chave de ouro.
andardemoto.pt @ 14-6-2026 19:22:48
O 28.º Portugal de Lés-a-Lés encerrou da melhor maneira possível, com a última etapa a ligar S. Pedro do Sul a Vizela num do muito bem passado. Este último dia foi pleno de aventuras, surpresas e emoções, sendo que a organização gizou uma etapa muito diversificada e com mais de 300 km, quando pelo trajeto mais curto as duas localidades estão a menos de 100 km uma da outra.
Os participantes acabaram por percorrer mais de 1100 quilómetros entre Faro e Vizela, parando em 18 oásis e noutros tantos locais, cumprindo um percurso apresentado nas 67 páginas do ‘roadbook’. Estes números são insuficientes para espelhar a real dimensão da maior aventura mototurística da Europa, colocada na estrada por uma grande equipa, e que, nesta ‘colheita vintage’ de 2026 garantiu enorme animação do primeiro quilómetro ao último metro, sempre com muito calor.
No festival mototurístico entre as cidades termais de São Pedro do Sul e Vizela, foram 320 quilómetros de um trajeto abrangente, através das Terras do Demo de Aquilino Ribeiro, das paisagens únicas do Douro Vinhateiro, das explorações auríferas nas minas de Jales e da agreste ruralidade de Terras de Basto. Segundo o horário ideal previsto, eram 11 horas e 20 minutos de absoluto envolvimento turístico num dia excelente para a prática da modalidade, que começou mais fresco do que os anteriores, para uma primeira paragem em Castro Daire que tão bem recebe os motociclistas, sendo uma paragem icónica da N2.
Aquilino Ribeiro e o ‘camião’ do francês
Para atravessar o Douro a caravana que, ainda algo ensonada, passou pela labiríntica aldeia de Pendilhe, onde Dominique Gaignet disse mal da sua vida para manobrar a gigantesca Harley-Davidson Electa Glide, comprida de dois metros e meio e com mais de meia tonelada sobre duas rodas. O francês do Moto-Club Luçonnais (organizador do FIM Motocamp em 2025) reconheceu “a elevada qualidade e originalidade do evento, impecável em todos os aspetos, apesar de estar longe de ter um percurso ideal para esta moto”.
Um lamento que não roubou o sorriso a quem fez mais de 3600 quilómetros só para chegar a Faro, passeando com sete amigos pelo sul de Espanha. Isto porque foi incapaz de dizer que não ao desafio lançado por Eric Sperner, presidente do clube que é geminado com o Grupo Motard de Fafe, e que é casado com Rosa Armanda Silva, uma portuguesa… de Fafe. Está explicado!
Ficou triste Gaignet porque, preocupado que estava com a condução do ‘camião’, não reparou na dezena de espigueiros que dão um toque único a Pendilhe, mas fez questão de passar com toda a serenidade numa Vila Nova de Paiva que ainda se espreguiçava. Com calma passou também no desvio pelas ruelas de Soutosa, terra onde nasceu Aquilino Ribeiro. A Fundação que protege o espólio e as memórias do autor de Terras do Demo ou Volfrâmio ainda estava fechada, mas, pouco depois, mesmo em frente à Câmara Municipal de Moimenta da Beira, era possível perceber a ligação do escritor e empenhado ativista anti ditadura às origens.
Levando muito a sério os avisos do ‘roadbook’ e de toda a organização quanto à exigência da terceira etapa deste Lés-a-Lés, andaram lestos os participantes que passaram em São João da Pesqueira bem dentro do horário previsto, havendo quem, com medo de atrasos, até se tenha antecipado. A entrada no concelho, atravessando o Rio Távora na robusta ponte de arco único de Riodades, fez recordar outra relevância motociclística, com as marcas deixadas pelos fogos a sublinhar a importância da campanha Reflorestar Portugal de Lés-a-Lés e tenta mudar mentalidades e a constituição da floresta nacional, apelando ao uso das árvores autóctones.
Histórias de naufrágios e traições no Douro
Tão deliciosos quanto as paragens, indispensáveis para hidratar e alimentar os participantes, em tempo aproveitado também para ir colocando a conversa em dia e falar sobre as maravilhas acabadas de ver. Assim foi também no Oásis montado em parceria pelos elementos dos moto clubes do Porto, um dos criadores do Lés-a-Lés no longínquo ano de 1999 que recriou importante episódio histórico, e de São João da Pesqueira, que, com o apoio da autarquia, proporcionou a tradicional bola de carne e dois porcos no espeto. Havia que comer para manter as energias que era ainda longo o caminho até Vizela, continuando pelo coração do Douro Vinhateiro, entre estradas encantadas, com passagem pela barragem da Valeira.
Esta construção é de 1975, um pouco a jusante do famoso cachão, o desfiladeiro granítico que estrangulava de tal forma o Douro que, enfurecido se lançava de uma altura de vários metros. Local que foi palco de lendário naufrágio recriado no Oásis anterior, com ajuda dos Bombeiros Voluntários que deram maior realismo com um bem-agradecido banho de mangueira a recordar águas tempestuosas. Como aquelas que, a 12 de maio de 1861, levaram ao naufrágio do luxuoso rabelo do segundo marido de Dona Antónia Adelaide Ferreira.
Diz a lenda que a ‘Ferreirinha’ se salvou graças ao balão
criado pelas longas saias, enquanto o próspero empresário britânico, Joseph
James Forrester, tornado Barão pelo Rei Fernando II, falecia devido à sua
avareza. Conta-se que os sacos de moedas presos ao cinto e colocados nas botas
o terão levado rapidamente ao fundo, mas Camilo Castelo Branco, contemporâneo
do acontecimento e sempre muito bem informado das vidas mais mundanas onde ia
buscar inspiração para as suas novelas, narra a verdade com outras letras.
No livro O Vinho do Porto, o escritor que viveu durante vários anos por aquelas
bandas, conta que o Barão de Forrester terá sido atingido pelo mastro da
embarcação, caindo atordoado às águas revoltas e esbracejado durante alguns
minutos em busca da salvação. Algo que José da Silva Torres, administrador de
longa data dos negócios e segundo marido da ‘Ferreirinha’, não terá tentado
evitar, ficando quedo e mudo perante os pedidos de socorro do inglês. Talvez,
conta Camilo, por saber do envolvimento romântico entre ele e a agora esposa
‘Ferreirinha’.
Escândalo em Vila Pouca de Aguiar
A caravana seguiu através de Favaios, capital do moscatel, apreciando os últimos vinhedos até Vilar de Maçada, e daí, atravessando as serras de Vilarelho e da Falperra, chegar ao planalto de Jales. Zona de terras auríferas exploradas desde há mais de 2000 anos, numa epopeia que começou no tempo dos romanos e se prolongou até outubro de 1992, criando numa estrutura que chegou aos 650 metros de profundidade no último dos 16 andares subterrâneos.
Mas o ‘grande escândalo’ surgiu durante visita ao Centro de Interpretação Mineiro de Jales, ao descobrir que ‘Donald Trump’ decidiu dar nova vida ao complexo anunciando a compra com o dinheiro ostentado, ali mesmo, por ‘J.D. Vance’. Um ‘good deal’ de quem garante possuir todas as cartas para jogar onde e quando lhe apetecer, acompanhado da promessa de ‘Make Vila Pouca de Aguiar Great Again’ que deixou os próprios ‘americanos’ espantados.
Um grupo de 10 emigrantes lusitanos, literalmente de todos os cantos de Portugal, de Chaves a Lisboa, de Alenquer a Faro, que se conheceram em New Jersey e ficaram unidos pela paixão motociclística. A ideia começou com Paulo ‘Montanellas’ Sousa que descobriu o Lés-a-Lés em 2022 e regressou em 2024. Para a 28ª edição desafiou mais amigos e todos alugaram motos para a aventura da Federação de Motociclismo de Portugal. Todos não, “que há quem tenha poder financeiro para mandar vir a Gold Wing desde os Estados Unidos apesar de sair bem mais em conta alugar uma moto”.
Espantados com o nível da organização, elogiaram o controverso ‘Trump’ de Jales como um dos momentos altos deste Portugal de Lés-a-Lés, enaltecendo “a capacidade de brincar com temas bem atuais ao mesmo tempo que mostram a História de Portugal de uma forma espetacular”. Depois de uma visita à réplica dos túneis das minas e de conhecer as ferramentas originais das muitas profissões indispensáveis numa exploração mineira, seguiram para Vila Pouca de Aguiar descobrindo pelo caminho alguns pinheiros-do-Oregon, conífera de grande porte originária da América do Norte.
Ali não podia faltar a conhecida Água das Pedras, extraída ali bem perto, no Parque das Pedras Salgadas, e onde até havia a possibilidade de assistir ao Concurso de Saltos Internacional, no Centro Hípico das Romanas. Curiosamente, os equídeos voltaram a ser tema de conversa em Cabeceiras de Basto onde a caravana chegou depois de mais uma boa dose de curvas com passagem por Ribeira de Pena, subindo ao Alvão, descendo ao Tâmega, visitando Arco de Baúlhe.
Rumo a Vizela, com um Mundial pelo caminho
Também a passagem pelo Confurco, meca do Rali de Portugal, mesmo às portas de Fafe, com o local onde foi dada a partida para o 15º Lés-a-Lé serviu agora de palco à cerimónia do pódio do primeiro dos dois dias da primeira jornada portuguesa que marca exatamente o meio do Campeonato Mundial de Enduro. Quem ficou com pena de não poder ver em ação os melhores enduristas do planeta, tem nova possibilidade no fim-de-semana de 20 e 21 de junho, em nova ronda pelas serras de Fafe, na única localidade que acolhe duas jornadas mundialistas em 2026.
Foi em Vizela, perante milhares de habitantes e com grande animação num palanque que contou com engraçados Centuriões Romanos, uma bela personificação da Vizela Romana e personagens em andas a juntarem-se às já imprescindíveis dançarinas numa festa onde nem faltou o fogo de artificio. Nem faltaram as mãos dos osteopatas da Osteomotus ou o apoio dos estreantes mecânicos Filipe, David e Diniz que se juntaram à equipa da Motoval. Nem faltou, claro está, um saboroso jantar, rematado com o famoso bolinhol, criado em 1884 e aclamado como uma das Sete Maravilhas Doces de Portugal em 2019.
O Repasto foi servido no Jardim Manuel Faria, mesmo ao lado da Praça da República, de onde partirá a edição de 2027 deste feita rumo a terras algarvias. Que, sublinhe-se, terá enormes exigências de qualidade depois do sucesso de 2026, fortemente aplaudido pelos envolvidos no 28º Portugal de Lés-a-Lés. Uma edição para ficar na história do motociclismo nacional.
andardemoto.pt @ 14-6-2026 19:22:48
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