Adelina Graça
Duas rodas, duas asas
OPINIÃO
Deixar que o mundo nos transforme um pouco mais
Agora que o fim do ano se aproxima, como um viajante cansado que regressa à aldeia depois de muitos meses na estrada, é tempo de preparar o futuro, de deixar que os sonhos despertem e tomem forma.
andardemoto.pt @ 31-12-2025 12:30:00 - Adelina Graça
É sempre nesta altura que abro os mapas: eles respiram histórias antigas e sussurram destinos que esperam apenas a coragem de um gesto.
O tempo, esse companheiro que nunca abranda, empurra-me para a ação. Depois de escolher o destino, começa o verdadeiro ritual da viagem: ajustar a moto, desenhar itinerários, escolher os lugares que quero tocar com a alma e as estradas que, serpenteando pelo mundo, me levarão aos lugares que ainda não conheço.
É nesta dança entre vontade e caminho que os sonhos se tornam mais nítidos, até ganharem a consistência de um plano.
Dizem que a viagem começa muito antes da partida, e é verdade. Cada vez que olho para as motos, nasce um novo destino dentro de mim. Mas cedo ou mais tarde chega o momento em que é preciso sentar, respirar fundo e apontar o dedo a um ponto do mapa.
No próximo ano quero ir mais longe, “fazer o que ainda não foi feito”. Depois de chegar à fronteira do Irão com a minha pequena Honda NX 250 — uma aventura que ficou colada à pele como o cheiro das fogueiras nos desertos — percebi que o movimento é uma necessidade, não um capricho. A chama que arde sobre duas rodas é uma chama que nunca se apaga, apenas pede mais estrada. E cada viagem muda-nos. Alarga o mundo e, ao mesmo tempo, torna-o mais íntimo. Relativiza o supérfluo, revela o essencial e oferece-nos rostos, abraços e histórias que se agarram a nós como se estivéssemos há muito à espera delas.
Guardo os abraços deixados pelo caminho, as conversas simples que iluminam dias inteiros, e até as perguntas meio indignadas: “Você é doida por vir ao Médio Oriente nesta altura”. Mas a verdade é que, em cada canto, encontro sempre a mesma generosidade: mãos que se estendem, olhares que acolhem, gestos que compensam todas as dúvidas.
Nunca me senti realmente em perigo. Os mal-entendidos resolvem-se quase sempre com um sorriso, um gesto paciente, um pouco de humanidade partilhada. Mas aprendi que o verdadeiro risco não está nas pessoas — está na natureza. E ela, sendo o motor maior destas viagens, é também a mais impiedosa quando encontra um motociclista desprevenido.
Agora, sentados diante dos computadores, traçamos linhas que ainda não são caminho, mas já são promessa. E junto dessa promessa deve vir também a prudência: escolher o equipamento certo, preparar os alforges com o mesmo carinho com que se prepara um reencontro, garantir que cada quilómetro será seguro e livre.
Que venham então os sonhos, que nasçam os planos.
E que a estrada, quando chegar, nos encontre prontos — como aqueles viajantes de que falava Sepúlveda — a deixar que o mundo nos transforme um pouco mais.
andardemoto.pt @ 31-12-2025 12:30:00 - Adelina Graça
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