Teste Kawasaki KLE500 SE - Equilíbrio Total
A apresentação à imprensa nacional da nova Kawasaki KLE500 SE que decorreu na região do Gerês, organizada pela Multimoto, o importador da marca de Akashi para Portugal, permitiu-me avaliar os prós e os contras deste modelo que tanta polémica tem causado.
andardemoto.pt @ 13-5-2026 07:31:00 - Texto: Henrique van Uden | Fotos: Rui Jorge
Quando olho para a nova Kawasaki KLE500 SE, a primeira sensação é a de reencontro com um nome que, para muitos, ficou associado à ideia de aventura acessível e polivalente. Só que, desta vez, o regresso faz‑se em pleno século XXI, com uma moto que assume sem complexos a estética rally e a vocação mista, entre o asfalto e a terra.
A frente é agressiva, com um conjunto ótico em LED bem vincado e um pára‑brisas que lhe dá imediatamente aquele ar de “máquina de especial de rally”, enquanto as laterais se mantêm simples e modernas, sem excessos de plástico nem linhas gratuitas.
Na versão SE, as combinações de cinzento e branco, ou o tom esverdeado mais sofisticado, reforçam a sensação de produto cuidado; na versão base, o preto/cinza muito escuro dá‑lhe um ar mais discreto, quase utilitário, mas ainda assim contemporâneo.
Não é uma moto que tente parecer outra coisa: assume‑se como uma adventure de média cilindrada, com proporções equilibradas e uma presença que inspira logo vontade de sair do alcatrão, pois recebeu toques de design inspirados na KX de Motocross.
Em cima dela, a história continua a fazer sentido. Ergonomicamente, sente‑se que a KLE500 foi desenhada com a dupla missão de rolar muitos quilómetros sentado e, ao mesmo tempo, permitir uma condução em pé natural e segura.
A relação entre assento, poisa‑pés e guiador está muito bem conseguida: em pé, sinto‑me imediatamente “em casa”, com o corpo centrado, boa leitura da frente e aquela sensação de controlo que só aparece quando a geometria foi pensada a sério para o offroad.
As suspensões ajudam muito a essa confiança, sobretudo na frente, onde a forquilha invertida KYB transmite feedback e filtra irregularidades sem se descompor graças a um curso de 210 mm à frente e 196 mm atrás, e às rodas de 21” na frente e 17” na traseira.
Sentado, a posição é relaxada, com o guiador que à primeira vista parece grande, mas que em andamento se revela bem dimensionado, permitindo boa alavanca sem obrigar a esticar demasiado os braços.
O assento revelou-se interessante. Foi pensado para ser mais estreito, o que facilita o controlo em pé e as manobras a baixa velocidade, além de ajudar quem não tem pernas infinitas. Mas essa estreiteza, combinada com uma espuma mais firme, faz‑se sentir ao fim de cerca de 150 km: não é um suplício, mas nota‑se alguma rigidez que poderá cansar em etapas muito longas. A Kawasaki, porém, antecipou bem esta dualidade de utilização e oferece um sistema ERGO‑FIT com quatro configurações possíveis de assento: dois mais altos (condutor e passageiro) e dois mais baixos, que se podem combinar entre si. Na prática, isto permite desde uma configuração mais turística, com assentos altos e bem acolchoados para conforto em estrada, até um assento praticamente contínuo em modo “offroad”, combinando o alto à frente com o baixo atrás, o que facilita a mobilidade do corpo nas zonas mais técnicas. É uma solução inteligente, que mostra atenção ao detalhe e à diversidade de utilizadores.
O painel de instrumentos acompanha a modernidade do conjunto. Na versão SE, temos um TFT a cores inspirado na competição, simples na apresentação, mas completo na informação essencial: consumos, temperatura, contagem de quilómetros. Mesmo com o sol a bater de chapa, a legibilidade mantém‑se boa, sem reflexos exagerados bem legível mesmo durante a condução em pé. A conectividade também existe, com a possibilidade de ligar o telemóvel via app Rideology da Kawasaki, permitindo, entre outras funções, registo de percursos, navegação e algumas indicações passo a passo no próprio painel. Não é um gadget supérfluo: para quem usa a moto no dia‑a‑dia e em viagens, ter esta integração limpa e funcional é um argumento real.
Os comandos seguem a mesma filosofia de simplicidade eficaz. Tudo está onde esperamos encontrar, sem menus labirínticos nem botões em excesso. O controlo do ABS é um bom exemplo: um único botão, com um funcionamento intuitivo em que basta carregar cerca de um segundo e voltar a carregar para mudar entre ligado e desligado. Para quem alterna entre estrada e terra, esta facilidade de gestão do ABS é crucial, e aqui a KLE500 SE marca pontos ao não complicar o que deve ser simples.
O pára‑brisas merece um capítulo à parte, porque é um dos poucos pontos em que a moto revela uma decisão discutível. Na SE, o pára-brisas é maior e oferece quatro posições de regulação, o que em teoria é excelente para adaptar a proteção aerodinâmica a diferentes estaturas e tipos de percurso. Na prática, porém, o sistema de ajuste recorre a pequenos parafusos, o que torna a operação pouco prática.
Acabamos por afinar uma vez e deixar ficar, porque não é algo que apeteça fazer à beira da estrada ou no meio de um trilho. Num segmento em que muitos utilizadores percorrem autoestradas, estradas secundárias e offroad no mesmo dia, um sistema de aperto rápido, sem ferramentas, faria toda a diferença. É uma nota negativa num conjunto que, de resto, revela muito cuidado na sua conceção.
Em andamento, a KLE500 confirma a boa impressão estática. A qualidade de construção surpreende pela positiva, tanto na perceção visual como no comportamento dinâmico. O quadro em treliça, leve mas robusto, combinado com a suspensão KYB à frente e o sistema Uni‑Trak atrás, oferece um compromisso muito bem conseguido entre conforto e controlo.
Em asfalto, a moto é estável, previsível e absorve irregularidades sem secura, mantendo sempre uma leitura clara do que se passa debaixo das rodas. Fora de estrada, comporta‑se com uma maturidade que não é garantida neste patamar de cilindrada e preço: tive oportunidade de completar um pequeno “mini enduro”, com zonas de pedras, regos e água, e a KLE500 SE manteve‑se sempre composta, sem bater em fim de curso de forma abrupta nem perder a linha com facilidade.
A altura livre ao solo é, no entanto, um ponto a ponderar para quem quer um nível de agressividade maior no offroad. O catalisador está colocado mesmo por baixo da moto, o que rouba alguns centímetros preciosos de folga ao chão. Para um uso misto, com trilhos moderados, não é dramático; mas em enduro mais exigente, há risco real de contacto com pedras ou ressaltos
Tendo a proteção do carter para proteger, com algumas alterações relativamente simples, é possível ganhar cerca de 5 centímetros, o que já muda o cenário, mas de origem fica a sensação de que a moto foi afinada mais para o adventure “realista” do que para o hard enduro. Em contrapartida, as bielas da suspensão traseira estão bem protegidas e bastante subidas, o que é excelente em termos de durabilidade e de proteção contra impactos, um detalhe que revela preocupação com a vida longa do conjunto.
A proteção de cárter, sobretudo na SE, é visualmente robusta e contribui para o look rally, mas para quem pensa em trilhos mais sérios talvez valha a pena considerar uma solução ainda mais envolvente e resistente. Não é que a proteção de origem seja má; simplesmente o resto da moto convida a ir mais longe, e aí a prudência mecânica recomenda um upgrade.
No capítulo da travagem, a KLE500 mantém a tradição dos “bons travões japoneses”. A potência está lá, a modulação é fácil de ler e a mordida inicial é suficientemente progressiva para não comprometer a condução em terra, sem perder eficácia no asfalto. O travão dianteiro permite dosear bem a carga, e o traseiro é um aliado útil tanto nas manobras como na gestão de trajetória em offroad, sem ser demasiado nervoso. Cumpre e cumpre bem, dentro do que se espera de uma adventure de média cilindrada.
O motor é, provavelmente, um dos maiores trunfos da KLE500. Trata‑se de um bicilíndrico em linha, com 451cc de cilindrada, arrefecido a líquido, com embraiagem assistida e deslizante, já amplamente elogiado noutras plataformas da marca. Na prática, o que se sente é um funcionamento muito redondo e fácil, com uma entrega de potência previsível e amigável.
A partir das 2500/3000 rpm, a resposta é muito boa, o que facilita imenso a condução em trilhos, nas manobras a baixa velocidade e em circulação urbana. Esta disponibilidade a baixa rotação traduz‑se também em consumos notavelmente contidos: em utilização real, é perfeitamente possível ver valores instantâneos na ordem dos 3 a 4 litros aos 100 km, com uma média durante o ensaio de pouco mais de 5 litros, o que, combinado com o depósito de 16 litros, garante autonomias interessantes para viagens e passeios longos.
Em média, a moto consegue ser frugal sem se tornar aborrecida, e em alta mantém uma vivacidade suficiente para ultrapassagens seguras e ritmos de autoestrada sem esforço. Estimo uma velocidade máxima na casa dos 180 km/h, o que é mais do que suficiente para o seu propósito.
O som do conjunto é um caso curioso. Mesmo com a opção do escape Akrapovic em titânio, o timbre é relativamente abafado, longe do ronco agressivo que alguns poderiam esperar, mas a norma Euro5+ assim o exige. No entanto, em longas distâncias, isso acaba por ser uma vantagem: o ruído não cansa, não agride, e o facto de o filtro de ar estar posicionado mesmo por baixo da cabeça do condutor cria um “soundtrack” subtil mas agradável, que dá alguma emoção sem ofender os ouvidos. É um equilíbrio sensato entre caráter e conforto acústico.
A caixa de velocidades está ao nível do melhor que se espera de uma moto “pensada e desenhada por japoneses”: precisa, direta e com um tato mecânico muito satisfatório. As mudanças entram justas, sem arrastos desnecessários, e encontrar o ponto‑morto é fácil e repetível, sem aquelas hesitações irritantes que por vezes surgem em transmissões menos refinadas. Em conjunto com a embraiagem assistida, que tem um acionamento suave e leve, o resultado é uma experiência muito pouco cansativa, tanto em cidade como em trilhos técnicos onde é preciso trabalhar mais a caixa.
A única nota que aponto é a ausência de manetes reguláveis de origem, tanto de travão como de embraiagem. Senti necessidade de dar um pouco mais de folga ao cabo de embraiagem para ter a manete mais à mão, e num mundo em que muitos concorrentes já oferecem de série um sistema de regulação, este pormenor podia ter sido melhor resolvido.
No uso diário e em contexto mais alargado, a KLE500 revela‑se uma moto surpreendentemente equilibrada. É fácil de empurrar à mão, não intimida nas manobras de parqueamento, curva bem e transmite sempre a sensação de ser uma ferramenta honesta, previsível e competente.
Em pé ou sentado, a leitura do conjunto é sempre coerente: não há “duas motos” distintas, uma para estrada e outra para terra, há sim uma plataforma que se adapta com naturalidade aos diferentes cenários. O motor redondo, a ciclística bem afinada e a ergonomia pensada para diferentes estaturas e estilos de condução fazem dela uma proposta muito completa
No balanço final, o que mais me agrada na KLE500 SE é precisamente este equilíbrio global. Não há um único elemento que se imponha como estrela absoluta; em vez disso, tudo trabalha em conjunto para criar uma moto fácil de conduzir, intuitiva e competente em quase tudo o que se lhe pedir.
A ergonomia bem pensada, a suspensão eficaz em asfalto e também em offroad, o motor redondo e económico, a travagem consistente e a qualidade de construção sólida, compõem um pacote que, na relação cilindrada/preço, tem tudo para ser um sucesso de vendas. As fotografias podem mostrar a pose, mas é em andamento que a moto realmente convence.
Do lado menos positivo, destaco sem hesitação o sistema de regulação do pára‑brisas, que merecia um mecanismo rápido e sem ferramentas, e a questão da altura livre ao solo condicionada pelo posicionamento do catalisador, que limita um pouco a ambição no offroad mais duro.
Acrescento ainda a ausência de manetes reguláveis de origem e a proteção de cárter que, embora suficiente para um uso adventure “normal”, poderá justificar um reforço para quem leva a sério os trilhos mais exigentes. São, no entanto, pontos que não desvalorizam o conjunto, mas que vale a pena ter em conta já que potenciavam ainda mais o desempenho.
A qualidade de construção, por fim, confirma a impressão de que estamos perante um produto cuidadosamente desenvolvido. Mesmo sabendo que a produção se reparte entre fábricas no Japão e na Tailândia, a sensação ao toque, o encaixe dos plásticos, a pintura, a cablagem e os componentes visíveis transmitem solidez e rigor. Não há arestas soltas nem aquela sensação de “low cost disfarçado” que por vezes se encontra em propostas mais agressivas no preço.
Aqui, a Kawasaki parece ter acertado na fórmula e criou uma adventure de média cilindrada, compatível com carta A2, com aspeto e comportamento de moto “a sério”, sem comprometer a acessibilidade.
A versão SE difere da versão base por incluir um painel de instrumentos TFT de 4,3 polegadas com conectividade, proteções de punhos reforçadas, pára-brisas mais alto e proteção de cárter em alumínio.
As KLE já estão disponíveis em Portugal. A KLE500, por um preço de 6,490.00, apenas na cor negra (Metallic Carbon Gray / Ebony) e a KLE500 SE, por um preço de €7,390.00, nas cores branco (Pearl Blizzard White) negro (Pearl Storm Gray) e preto com verde (Metallic Bluish Green).
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