Adelina Graça
Duas rodas, duas asas
OPINIÃO
Porque, afinal, para o ano… é que é
Cada fim de ano traz consigo o silêncio em que o tempo parece abrandar. É como se fechássemos um livro, sabendo que ainda vamos voltar a ele.
andardemoto.pt @ 24-12-2025 12:15:00 - Adelina Graça
Ficam as aventuras vividas, guardadas na memória com carinho, e ficam também aquelas que nunca chegaram a acontecer — sonhos adiados, ideias deixadas, promessas feitas a nós próprios.
É nessa altura que olho para as minhas máquinas de outra forma. Não são apenas motos com marcas do uso; são mapas de tudo o que aconteceu. Cada risco conta uma história, cada avaria lembra um improviso, cada regresso são quilómetros somados àquilo que somos. Houve dias fáceis e dias difíceis, e ambos deixaram marcas que agora reconheço com uma certa ternura.
À mesa, entre pratos quentes e copos meio cheios, trocam-se prendas e memórias. As histórias repetem-se, como sempre, mas ninguém se importa. Pelo contrário: ganham novas cores, arrancam gargalhadas, até daquele tio mais sisudo, que acaba por ceder. Entre um par de luvas novas e umas meias quentes, já sei que tudo encontrará o seu lugar — dentro das botas velhas, gastas por tantas viagens, mas ainda fiéis.
Renova-se, quase sem darmos por isso, a esperança. Surge nos inevitáveis “para o ano é que é”, ditos com um sorriso cúmplice, como quem sabe que a vida nem sempre cumpre o plano, mas continua a valer a pena tentar.
E é na passagem de ano que o mundo se torna pequeno. O telefone toca e, do outro lado do mundo, alguém já entrou no Ano Novo. No meio da neve, chegam histórias de aventuras passadas e planos por fazer. E, sem esforço, regressam memórias antigas: as Palinkas partilhadas na fronteira da Ucrânia, o churrasco improvisado numa aldeia perto de Cracóvia, a bomba de gasolina presa à pressa com abraçadeiras que, surpreendentemente, ainda resistem.
O mundo continua a rodar e, com ele, ao telefone as vozes de quem encontrámos pelo caminho. Lembro-me dos franceses no Sahara, que nos mostraram que o off-road também pode ser elegante, mesmo quando tudo à volta é poeira e horizonte.Quando chega a nossa vez, aqui neste canto da Europa, ligo para Marrocos. Do outro lado estão amigos, histórias de deserto, gestos simples de quem ajuda sem pedir nada em troca e o cheiro imaginado dos tagines. E, inevitavelmente, alguém puxa daquela história antiga: o dia em que me armei em Daniel Sanders e me espalhei logo a seguir. Rimo-nos como se fosse a primeira vez. Talvez porque, no fundo, rir também seja uma forma de regressar a casa.
E assim termina mais um ano. Não com grandes promessas, mas com a certeza tranquila de que ainda há caminhos por percorrer.
Porque, afinal, para o ano… é que é.
andardemoto.pt @ 24-12-2025 12:15:00 - Adelina Graça
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