Henrique Saraiva

Henrique Saraiva

Gosto de voltas e passeios de moto aqui ao pé… e mais além!

OPINIÃO - Viagens ao Virar da Esquina

Uma viagem de 2 anos a Andar de Moto - Parte 2

Recordo que no mês passado terminei a primeira parte desta viagem de 2 anos, no extremo sudoeste de Portugal. Dali...só por água: para Espanha cruzando a foz do Guadiana ou então, perder-me nas águas do Atlântico, quem sabe para onde...De moto não tinha saída. Regressei....

andardemoto.pt @ 16-1-2022 17:51:49 - Henrique Saraiva

Belver visto do Alamal

Belver visto do Alamal

12ª Etapa - Pelos caminhos do Alto Tejo

Lembram-se do Major Alvega das revistas de aventuras aos quadradinhos? E da posterior série televisiva? Os mais velhos certamente. Pois este percurso começa na vila de Alvega (que inspirou o nome português daquele herói imaginário), situada nas margens do Tejo alguns quilómetros acima de Abrantes. É aqui que o leito do rio se começa a alargar.

Pois a ideia é percorrer as margens para montante, quase até Espanha.

Pouco depois de Alvega, atravesso o Tejo pelo paredão da Barragem de Belver. Logo a seguir, passo pela praia fluvial de Ortiga. Não é a única nesta albufeira. Mais à frente a vila que lhe dá nome: Belver.

Ponte de Ródão

Ponte de Ródão

Com o seu castelo medieval imponente no monte fronteiro ao casario, com facilidade descortinamos a sua importância noutras era. Na outra margem, a praia fluvial do Alamal. Recanto magnífico, muito aprazível em alturas estivais (que por aqui quando faz calor, faz mesmo). Atravesso a ponte metálica a caminho de Gavião. Um pequeno percurso, mas com umas curvas simpáticas. Até Nisa a estrada (EN118) não tem história... rectas e bom piso. Um bom aperitivo para o troço de 18km que une Nisa, a última do Alentejo, a Vila Velha de Ródão, a primeira da Beira Baixa. Puro deleite motociclístico.

Portas de Ródão e Linha da Beira Baixa

Portas de Ródão e Linha da Beira Baixa

Última travessia do Tejo e oportunidade para olhar para o monumento natural das Portas de Ródão. magnífico! No topo da encosta, uma singela torre, mas com uma lenda antiquíssima que nos remete para o tempo dos Visigodos: é o Castelo do Rei Wamba.

Castelo do Rei Vamba - Tejo rumo à foz

Castelo do Rei Vamba - Tejo rumo à foz

13ª Etapa - Borba, a filha alentejana de um deus menor

O título deixa antever o desfavor que brinda esta terra alentejana: a sua mais pequena cidade. Borba.

Fui até lá pelo caminho mais longo: passei por Mora, Pavia, Vimieiro...detive-me a contemplar de longe o Castelo de Evoramonte (chovia e já lá tinha estado quando fui até Olivença - ver a história da 1ª etapa). Passei pelo Redondo e detive-me no Alandroal. Interessante vila, tipicamente alentejana e com um Castelo a merecer visita (e melhor conservação... mas já vi muito pior). Regressei a Juromenha. A Sentinela do Guadiana deixou-me maravilhado mais uma vez (rever a 1ª etapa desta viagem de 2 anos). Daqui fiz finalmente agulha para o meu destino.

Fortaleza de Juromenha

Fortaleza de Juromenha

Borba fica a 3 quilómetros da Princesa do Alentejo: Vila Viçosa. E essa é também a sua desdita. Porque parece que tudo de bom ficou na vila, hoje cidade, da Casa de Bragança e da Santa Padroeira de Portugal, Nª Sª da Conceição. Conta-se que Borba tem uma fonte...apenas porque já não cabia em Vila Viçosa....

Em Vila Viçosa, são imperdíveis o Paço Ducal - magnífico e a justificar a visita guiada: uma lição de História de Portugal! - o Castelo, a Igreja de Nª Sª da Conceição. E as ruas da bonita terra alentejana.

Paço Ducal

Paço Ducal

Borba perde em beleza para a sua vizinha. Casario típico da região e recorte urbanístico que deixa antever a sua ancestralidade: foi tomada aos Mouros em 1217. E se da vila pouco mais há a destacar, a não ser a excelência dos seus mármores (mas cujo contraste é evidente na terra esventrada e nos montes de escória resultantes da extracção da preciosa pedra), daqui levei a gratidão da forma como fui acolhido na Casa do Terreiro do Poço e dos amigos que aí fiz.

Castelo de Vila Viçosa

Castelo de Vila Viçosa

O regresso foi por Estremoz e Évora. Em ambas não me detive. terminei o périplo no Cromeleque dos Almendres, monumento pré-histórico que pede meças em antiguidade ao famoso Stonehenge inglês.

Cromeleque dos Almendres

Cromeleque dos Almendres

14ª Etapa - Para lá do virar da esquina, a lenda das duas chaves

Por duas vezes estive em Chaves. Em ambas para no dia seguinte me lançar estrada abaixo pela EN2. Pouco tempo para desfrutar da cidade, mas suficiente ainda assim, no somatório das duas, para absorver a sua ancestralidade, os seus monumentos e o ser das suas gentes.

Há um monumento em particular que é um dos meus favoritos em Portugal e que não me canso de contemplar: a Ponte de Trajano. Construída pelos Romanos no século I da nossa era, reparada e restaurada ao longo do tempo, aí está ela: formosa e segura! E ao serviço... dois mil anos depois. Obra magnífica.

Ponte de Trajano

Ponte de Trajano

Percorridas as suas ruas, tive a oportunidade de ver a cidade na sua amplitude do bonito Miradouro situado num monte que a protege do lado nascente. Vista fantástica.

Vista panorâmica do Miradouro

Vista panorâmica do Miradouro

Denominada Acqua Flaviae pelos Romanos graças à excelência medicinal das suas águas - algo que os Romanos prezavam e cultivavam - foi nessa época que se passaram os factos (serão factos?...acreditemos nisso) que deram origem à Lenda das Duas Chaves e mais tarde deram nome à cidade: as chaves da Saúde e do Amor.

Torre de Menagem

Torre de Menagem

Visitar Guimarães é um desafio se a quisermos descrever sem cair nos clichés habituais do “berço da nacionalidade” ou das desavenças entre D. Afonso Henriques e sua mãe. Sem dúvida que foi a primeira capital de Portugal. Fundamental na fundação da Nacionalidade e preponderante na Reconquista Cristã.

Castelo de Guimarães

Castelo de Guimarães

Para evidenciar esse riquíssimo passado, lá estão o magnífico e imponente Castelo, a Igreja de S. Miguel onde o nosso primeiro rei foi baptizado, ou logo ao lado o majestoso Paço dos Duques de Bragança (construído no Séc. XV e único na Península sob o ponto de vista arquitectónico). Percorrer as ruas que descem do Castelo, com um casario típico e bem conservado é ter a certeza de estarmos a percorrer os caminhos da nossa História.

Paço Duques de Bragança

Paço Duques de Bragança

Mas a história que me atraiu a Guimarães foi outra: a do Guimarães das Duas Caras!

No Largo da Oliveira, ponto fulcral do Centro Histórico de Guimarães, com uma secular oliveira que lhe dá o nome e um monumento gótico celebrando a vitória na Batalha do Salado. Atrás deste a Igreja de Nª Sª da Colegiada (ou da Oliveira). Do outro lado, o edifício medieval dos antigos Paços do Concelho onde, no cimo da sua fachada principal, figura a curiosa estátua de um personagem com uma característica única: tem duas caras. Uma, no local natural e uma outra no abdómen! É o Guimarães das Duas Caras.

Largo da Oliveira - Monumento à Batalha do Salado

Largo da Oliveira - Monumento à Batalha do Salado

A história, ou lenda, remonta aos tempos de D. Sebastião e da Batalha de Alcácer Quibir. E dessa fatídica ocorrência veio a nascer a lenda de um natural desta terra, que curiosamente lhe levaria o nome (ou a alcunha), da sua fuga e regresso à terra natal numa aventura de múltiplas peripécias e que, presumo, tenha vindo a originar a famosa expressão “tem o Rei na barriga”.

Estrada Nacional 120

Estrada Nacional 120

Curioso? A lenda está contada com todos os detalhes na edição de Julho de 2020.

E se não perdi a oportunidade de ver um espectacular pôr-do-sol na Penha, também trouxe a memória da pernoita na Casa do Ribeiro. Magnífico solar tipicamente minhoto, bem conservado graças aos seus proprietários que foram os meus anfitriões. O serão em amena conversa foi excelente e enriquecedor. A deixar saudades, sem dúvida.

Porto Côvo

Porto Côvo

16ª Etapa - Fui andar de carrossel

Recordam-se daqueles carrosséis das feiras, que giram e giram, num sobe e desce como se tivessem uma ondulação? Com cavalos e motos, carros de bombeiros e carruagens? Normalmente têm uns caldeiros onde cabem algumas pessoas e rodam sobre o seu próprio eixo, para a direita e para esquerda, à medida que o carrossel evolui. Essa foi a inspiração para esta volta.

Diz-se habitualmente que o Alentejo é plano. E que as estradas são monotonamente a direito. É verdade. Na sua essência assim é. Mas não há regra que não tenha as suas excepções. Uma delas é certamente a zona que percorri e um conjunto de estradas que nos permitem fazer de seguida, cerca de 70km de curvas e contracurvas, para a direita e para a esquerda, em sobe e desce permanente. Recordam-se do carrossel?

A viagem começou em Alcácer do Sal. A marginal desta cidade da margem direita do Sado é lugar aprazível para começar estas digressões. O cafézinho matinal numa esplanada com aquele enquadramento é excelente para marcar o início de qualquer jornada.

Sines - Praia Vasco da Gama

Sines - Praia Vasco da Gama

Daí, em direcção à Comporta, a primeira paragem no Cais Palafítico da Carrasqueira e a oportunidade para ver como o engenho humano resolve os seus problemas, tantas vezes da forma mais simples. E a paisagem...deslumbrante: o estuário do Rio Sado, estreitado entre Tróia e Setúbal com a Arrábida em pano de fundo. Imperdível.


Vista panorâmica de Castelo de Vide

Vista panorâmica de Castelo de Vide

Segui até Melides para “apanhar” o Carrossel Alentejano: a estrada que dali me levou até Grândola (EN261-2) e daqui até Santiago do Cacém (EN120) atravessa e volta a atravessar a Serra de Grândola. Depois, na mesma EN120, a Serra do Cercal até à pequena povoação de Sonega, foi a continuação deste trajecto sinuoso e um verdadeiro deleite de condução. Verdade se diga que a novíssima Suzuki V-Strom 1050XT foi a companhia ideal.

Largo de Gonçalo Eanes de Abreu

Largo de Gonçalo Eanes de Abreu

Acabado o festim...rumei em direcção ao litoral. Era agora tempo de reviver algumas reminiscências deste pedaço de território onde vivi a minha infância: Porto Côvo, S.Torpes, Sines, Lagoas de Santo André e Melides.

Judiaria

Judiaria

Vivi até à adolescência em Grândola e estas foram as praias onde passei férias tantas vezes. Obviamente que o terreno desta volta não me era desconhecido. Pelo contrário... mas já não o percorria há muitos, muitos anos. Foi bom voltar.

17ª Etapa - Uma viagem às arrecuas do tempo

Se na etapa passada regressei ao Alentejo da minha infância, nesta continuei por estas terras, mas do outro lado, junto à fronteira e mais para norte. Por onde costumo andar mais frequentemente nas últimas décadas.

Porquê uma viagem às arrecuas do tempo? Pela simples razão que a minha primeira paragem foi em Castelo de Vide. E aí, naquela a que chamam Sintra do Alentejo (o que eu detesto estas fórmulas! Sintra é Sintra. Para mais inigualável. Castelo de Vide não precisa de comparativo. tem personalidade, beleza, ancestralidade própria. O mesmo raciocínio se aplica a muitos outros locais...minimizam-se porque acabam por ser entendidos como segunda escolha. Adiante!). Neste caso o responsável do epíteto foi D. Pedro V. Palavra de El-Rei!

A estrada onde as árvores estão de cuecas

A estrada onde as árvores estão de cuecas

Aqui recordei Gonçalo Eanes de Abreu, distinto membro da Ala dos Namorados de D. Nuno Álvares Pereira, na Batalha de Aljubarrota. Falei do passado judaico de Castelo de Vide, que se projectou até à actualidade e de Garcia de Orta, filho de judeus e distinto médico do início do Séc. XVI. Outros filhos da terra mencionados foram Mouzinho da Silveira, político e jurisconsulto do Séc. XIX e Fernando Salgueiro Maia, militar do 25 de Abril.

-Marvão...lá em cima

-Marvão...lá em cima

De Castelo de Vide, rumei a Marvão. Pela famosa estrada (EN246-1) em que as “árvores estão de cuecas” no prosaico dizer das gentes daqui.

Marvão - Castelo e Jardim

Marvão - Castelo e Jardim

Situada no cimo de imponente escarpa da Serra do Sapoio, a 900m de altitude, é impressionante guardiã destas terras. E certamente foi um baluarte na defesa destes territórios ao longo dos séculos mais remotos.

-De Marvão vê-se a terra toda

-De Marvão vê-se a terra toda

Ou seja, ao visitar Marvão, andamos para trás no tempo relativamente a Castelo de Vide.

Nos tempos do Romanos fez parte da estrutura defensiva da vizinha cidade de Ammaia e na época do domínio mouro atingiu maior relevo. Terá sido Ibne Maruane, líder militar e religioso sufista do Al Andalus, que deu nome à vila de Marvão (Marvão pela aliteração do seu nome Maruane), cujo castelo construiu entre 876 e 877.

Na Reconquista, seria tomada e perdida aos Mouros. No início do Séc. XIII já portuguesa recebeu foral em 1226 outorgado por D. Sancho II. A pequena e bem conservada vila está integralmente situada no interior das muralhas.

Ammaia -Porta Sul.

Ammaia -Porta Sul.

E é das ameias desta que podemos vislumbrar o horizonte. É uma visão deslumbrante, qualquer que seja a época do ano. Dada a altura a que estamos, dizem que daí “podemos ver as águias de costas”. Não foi desta vez... mas confirmo!

Cabo - Vila Franca do outro lado

Cabo - Vila Franca do outro lado

Saí de Marvão e continuei a viagem às arrecuas. Ainda mais para trás no tempo.

Fui até às ruínas da cidade romana de Ammaia. Ficam em S. Salvador da Aramenha, meia dúzia de quilómetros a sul de Marvão. Foi nesse tempo um importante núcleo, situado no trajecto entre Emérita Augusta (a espanhola Mérida na designação actual) e os mais importantes locais no território mais ocidental onde hoje se situa o nosso País. Fundada no Séc. I, teve o seu apogeu nos tempos seguintes, entrando em declínio por volta do Séc. V. Depois, foi sendo sucessivamente saqueada. Perdida no tempo e soterrada, só mais recentemente veio a ser alvo de escavações que a pouco e pouco no vão trazendo a memória do seu brilhantismo...há 2000 mil anos.

Escaroupim.

Escaroupim.

Comecei na actualidade e fui até ao Séc. XV em Castelo de Vide. Em Marvão se fala da herança moura e da Reconquista Cristã. Na Ammaia, recorda-se o nosso passado civilizacional com os Romanos. Andei às arrecuas do tempo.

18ª Etapa - Do Cabo à Póvoa pelas Aldeias Avieiras

Esta etapa é um regresso ao Rio Tejo. Em concreto a algo que é do mais típico que nas suas margens podemos encontrar: as aldeias avieiras.

Nas primeiras décadas do Séc. XX, os pescadores de Vieira de Leiria, pela impossibilidade de se fazerem ao mar no Inverno, migravam para a lezíria do Tejo e prosseguiam a sua faina por aqui. Se no início, essas migrações eram sazonais, muitos foram por aqui ficando. Por outro lado, as habituais cheias do Tejo, obrigavam a que recorressem a cais palafíticos e as casas onde residiam ficassem também sobre estacaria. Daí a sua muito típica construção em várias aldeias que podemos encontrar de um e outro lado do Tejo. Desde as imediações de Lisboa até um pouco para lá de Santarém. E avieiras pela origem desses migrantes: vinham de Vieira.

Começámos a jornada, no Cabo, defronte de Vila Franca de Xira, onde antigamente (antes de 1951) se fazia a travessia do rio em embarcações denominadas “gasolinos”. Prossegui e em Salvaterra de Magos, fiz breve visita à Falcoaria Real com a promessa de lá voltar com mais tempo.

Porto de Sabugueiro

Porto de Sabugueiro

Dali, passei no Bico da Goiva onde começa a Vala Real de Salvaterra e pela Praia Doce. Nome simpático o desta praia fluvial. Depois detive-me no Escaroupim. Talvez a mais conhecida das Aldeias Avieiras.

Porto de Muge e Ponte Rainha D. Amélia

Porto de Muge e Ponte Rainha D. Amélia

Prossegui o caminho e detive-me em Muge. Paragem obrigatória para reabastecimento nas bifanas do Silas. Aqui fica a Casa de Cadaval e pude ainda ver uma pequena ponte romana votada quase ao esquecimento. Porto de Sabugueiro foi a aldeia avieira seguinte.

Valada

Valada

Regressei a Muge e passei para a margem direita pela centenária Ponte Rainha D. Amélia.

Palhota - casa típica

Palhota - casa típica

Seguiu-se Valada do Ribatejo, famosa pela sua resistência habitual às cheias do Tejo. Muito aprazível a zona ribeirinha com pequeno ancoradouro e um parque de merendas agradável com árvores frondosas propiciadoras de sombras convidativas em dias de maior canícula. Tranquilidade absoluta por aqui.

Palhota - Cais palafítico

Palhota - Cais palafítico

De Valada visitei sucessivamente Palhota - onde viveu Alves Redol que bem descreveu a vida destas gentes e onde foi realizado em 1975 o documentário “Avieiros” -  e Porto da Palha, situada na Quinta do Lezirão.

Porto da Palha - Canoa do Tejo

Porto da Palha - Canoa do Tejo

Mais à frente, a praia fluvial da Casa Branca. Ou melhor, o que dela resta, pois está votada ao abandono. Também ao abandono e em ruínas está, um pouco mais à frente, o Palácio das Obras Novas (nome irónico!).

Palácio das Obras Novas

Palácio das Obras Novas

Atravessei a Vara Real da Azambuja e passada esta terra ribatejana, o destino final ficava no Bairro dos Pescadores junto à Póvoa de S. Iria. Apenas para recordar o antigo cais palafítico que recentes obras de “melhoramentos” eliminaram, perdendo-se essas memórias.


Rio Tejo na Póvoa de Santa Iria - Memória de 2017

Rio Tejo na Póvoa de Santa Iria - Memória de 2017

19ª Etapa - Romeiro, Romeiro, quem és tu?... Ninguém!

Esta jornada é sobre uma estrada: a Estrada Nacional 10, que percorri. Porquê esta estrada em especial? Ela começa em Cacilhas e termina, do outro lado da capital, em Sacavém. Ou seja, faz um percurso circular pela Península de Setúbal, vai atravessar o Tejo em Vial Franca de Xira e depois regressa a Lisboa em percurso paralelo ao rio. Sempre achei curioso estar numa fila para entrar em Lisboa, na margem sul e ouvir dizer na rádio, que também havia fila a norte...na EN10, a mesma estrada e por onde eu tinha vindo.

Visitei Cacilhas e o cais onde ainda me recordo de apanhar o barco para Lisboa (em miúdo, daí vi a construção da Ponte 25 de Abril). Foi aqui que encontrei a inspiração para o título: no Frei Luis de Sousa de Almeida Garrett, é aí que se situa o Palácio de D. João de Portugal, aonde este regressa depois de 20 anos de cativeiro resultante da derrota em Alcácer Quibir (isto passa-se em 1600). E aí é feita a célebre pergunta....

Cacilhas

Cacilhas

Depois segui com um pequeno desvio até à Ponta dos Corvos, defronte do Seixal. aí fica também a ruína da fábrica de secagem de bacalhau Atlântica. Reminiscências de uma indústria quase desaparecida. Como também tinha visto anteriormente ao passar no que resta da Lisnave.

-Fábrica Atlântica

-Fábrica Atlântica

Tempo ainda para breve visita ao Moinho de Marés de Corroios.

Moinho de Marés de Corroios

Moinho de Marés de Corroios

Segui em direcção a Azeitão, com a Arrábida a ganhar dimensão no cenário. Em Setúbal, subi à Fortaleza de S. Filipe (Pousada) para usufruir da vista espectacular para a cidade de Bocage, o estuário do Sado e a Península de Tróia.

Setúbal - panorâmica

Setúbal - panorâmica

Até à Marateca segui rumo a nascente e ainda passei pelo Moinho de Marés de Mouriscas. Aí inflecti para norte, sempre seguindo a EN10.

Marco

Marco

Visitei S. Isidro de Pegões, local de interessante obra de colonização interna promovida nos anos 50 do século passado.

S. Isidro de Pegões.

S. Isidro de Pegões.

Novamente na EN10, passei sucessivamente Samora Correia, Porto Alto e entrei em Vila Franca pela Ponte Marechal Carmona. Subi ao Monte Gordo para apreciar a ampla vista da lezíria ribatejana, com a cidade aos pés.

V. Franca de Xira

V. Franca de Xira

Depois de Vila Franca, à saída de Alhandra, um pequeno desvio: subi durante cerca de 1 km, e num frondoso parque com uma vista magnífica, imponente monumento aos Heróis das Linhas de Torres.

Pouco mais adiante, no Sobralinho, oportunidade para visitar o Palácio e Parque que leva o nome da terra.

Palácio do Sobralinho

Palácio do Sobralinho

E Sacavém estava logo ali a seguir. O final da EN10. Uma estrada que acaba quase onde começou

20 - As estradas esquecidas da Beira Baixa

Vivi 2 anos em Castelo Branco. Todavia esta volta é por uma zona que não conhecia. E que pelo que apreciei, está quase votada ao esquecimento. Se as modernas autoestradas rasgam a paisagem, conseguem ter quase o mesmo efeito na coesão do território. Quem por lá passa em alta velocidade busca o destino e nem se apercebe da realidade que, neste caso, vai da A-23 até à fronteira com Espanha.

Comecei em Vila Velha de Ródão depois do aquecimento no troço da EN18 que percorre a Serra de Nisa. 

 EN18  Serra de Nisa - Casa de Cantoneiros

EN18 Serra de Nisa - Casa de Cantoneiros

Como sempre, na ponte defronte das Portas de Ródão. Daí, até à primeira paragem, em Malpica do Tejo, passei por Perais, Alfrivida e pela Ponte de Lenticais (com um muito bonito parque de merendas ao seu lado).

Em Malpica tentei aceder ao seu porto fluvial... mas a estrada estava cortada. Não percebi... Voltei para trás e tive um “encontro imediato”...

A partir daqui, estava a percorrer o Parque Natural do Tejo Internacional (a margem esquerda do rio nesta zona, pertence a Espanha). Próxima paragem, Monforte da Beira e depois rumo ao Rosmaninhal. Se olharmos para o mapa percebemos o recanto do nosso País onde estava. Esta terra foi sede de concelho entre 1510 e 1836.

-Ponte de Lentiscais

-Ponte de Lentiscais

Era tempo de rumar a norte. O destino era Termas de Monfortinho. Até lá chegar passei por Zebreira.

As Termas ficam mesmo junto a Espanha (separada aliás por um pequeno rio, quase à distância de um salto... mas não vale a pena. É só atravessar a ponte!). Conhecidas pelos Romanos, nunca chegaram a conhecer o esplendor de outros locais termais devido à dificuldade de acessos. Tempos houve, não muito para trás, que este era um destino remoto.

Termas de Monfortinho

Termas de Monfortinho

Das Termas saí em direcção a duas terras que são bem conhecidas: Penha Garcia e Monsanto. Com características diferentes mas são parecidas por ficarem ambas no cimo de montes e rodeadas do agreste de formações rochosas graníticas com formatos que a erosão do tempo esculpiu. Não é por acaso que são presença frequentes em promoções turísticas pois a beleza agreste destas terras deixa-nos reduzidos à nossa pequena dimensão

Monsanto - Panorama com a Torre do Lucano ao fundo

Monsanto - Panorama com a Torre do Lucano ao fundo

Terminei o percurso na antiquíssima Idanha-a-Velha. Fundada no Séc. I a.C. à época do Imperador Augusto. Segundo algumas teorias, terá sido aqui que, em 305, terá nascido o Papa Dâmaso I. Mais tarde, conheceu grande esplendor na época visigótica. Os Mouros arrasaram-na em 713. Foi definitivamente conquistada por D. Sancho I.

danha a Velha - Fortaleza - Porta Norte

danha a Velha - Fortaleza - Porta Norte

Terras esquecidas estas. A que a situação sanitária ainda mais agrava. Locais houve onde passei que não se via vivalma. E a que encontrei olhava-me como se questionasse “o que anda este aqui a fazer”. Se calhar, com razão....


21 - A demanda pela Esperança


O mote foi tentar encontrar (simbolicamente, claro) algo que no presente é fundamental para todos: Esperança.


Serviu para completar uma zona ainda por desvendar nestas minhas viagens ao virar da esquina. Portalegre e, naturalmente visitar uma pequena povoação que tem esse nome tão grande: Esperança.


A cidade do norte alentejano, que se espalha a meia encosta da Serra de S. Mamede, tem um belíssimo enquadramento paisagístico. E percorrer as ruas do seu centro histórico é um bom exercício físico. Ora se sobe, ora se desce, em ruas de empedrado por vezes irregular. As 4 torres que restam do Castelo marcam a linha do horizonte bem como a imponente Sé em estilo maneirista. Muito bonita.

Panorama de Portalegre

Panorama de Portalegre

Quando entramos em Portalegre, todos os caminhos vão dar ao Rossio. É aqui o coração da cidade. E também onde fica o imponente e secular plátano (considerado a mais bela árvore de Portugal em 2020) que marca o início do agradável Jardim do Tarro. O Museu das Tapeçarias é um marco a merecer entrada noutra época em que possamos visitar estes espaços.

Sé de Portalegre

Sé de Portalegre

Depois do périplo por Portalegre, era tempo de prosseguir na minha demanda. A rumo foi em direcção a Arronches. Pequena vila sede de concelho e que faz fronteira com Espanha, tem o ponto central no largo onde se situam os Paços do Concelho, a Igreja Matriz e a Igreja da Misericórdia, cada uma com a sua torre que marcam de forma distinta o recorte urbano de Arronches. E Esperança estava perto...

A mais pequena ponte internacional do mundo

A mais pequena ponte internacional do mundo

A demanda estava concluída. Mas sabia que ali perto ficava uma ponte muito curiosa. Tão curiosa que é considerada a mais pequena ponte internacional do mundo. Une duas povoações de nome igual em diferentes línguas: Marco do lado de cá do Arroyo Abrilongo (o pequeno ribeiro que as separa e faz fronteira) e El Marco do lado de lá.

Efectivamente, a pequena aldeia sede de freguesia, fica a meia dúzia de quilómetros em direcção ao país vizinho. Pouco tem a registar para lá do seu nome e do facto de quase parecer deserta.

Antes de regressar, voltei a Esperança e fiz um pequeno desvio para visitar as pinturas rupestres da Lapa dos Gaivões. Foi a forma perfeita para terminar esta jornada...em demanda da Esperança.


Lapa dos Gaivões

Lapa dos Gaivões

E com pinturas rupestres terminei esta fase de 2 anos da minha viagem a Andar de Moto. Espero que tenham gostado e que estas voltas e reviravoltas ao virar da esquina possam servir para vos inspirar a melhor conhecer os recantos deste nosso País. Afinal, as aventuras são onde nós quisermos que sejam. Assim possamos rapidamente ultrapassar os constrangimentos que nos prendem e possamos dar asas à liberdade.

Para terminar, porque a segunda metade destes dois anos foi passada num enquadramento pouco propício, devo salientar que todas as viagens realizadas durante este período foram feitas em estrita obediência às regras sanitárias e de mobilidade vigentes ao momento.

O meu desejo é que possamos continuar estas Viagens ao Virar da Esquina convosco.

Obrigado por nos acompanharem.

Boas curvas...com muita saúde!

andardemoto.pt @ 16-1-2022 17:51:49 - Henrique Saraiva

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