Resumo dos International Six Days Enduro, em Itália
Decorreu, entre os dias 24 e 29 de agosto, a 99ª edição dos International Six Days Enduro em Itália, na região de Bergamo, sendo que o nosso país participou com as seleções Sénior e Júnior.
andardemoto.pt @ 1-9-2025 13:42:42 - Texto: Pedro Pereira
A 99ª edição dos International Six Days Enduro (ISDE), prova maior e mais antiga do motociclismo off-road (realizou-se pela primeira vez em Carlisle, Inglaterra, no ano de 1913), teve como cenário a região de Bérgamo, no Norte de Itália e veio a ser particularmente exigente para os 660 pilotos e respetivas máquinas, nomeadamente por causa da chuva.
São já 99 edições realizadas, sendo que, como já noticiámos, a edição centenária, a realizar em 2026, vai ter como anfitrião Portugal, mais concretamente a Costa Alentejana, nos dias 12 a 17 de outubro. Será a quarta vez que a prova se realiza no nosso país, depois de 1999 em Coimbra, 2009 na Figueira da Foz e 2019 em Portimão.
Dia 1: Seleção lusa arrancou de forma cautelosa
A Seleção lusa, presente nos “Seis Dias”, em Itália, foi representada nos Sénior por Luís Oliveira, Bruno Charrua, Rúben Ferreira e Frederico Rocha. Já os Júnior foram os pilotos Francisco Leite, Luís Pinto e Gonçalo Jesus (os dois últimos são estreantes nos ISDE e em grandes provas internacionais).
Ao contrário do que seria de prever para o final de agosto, em que a norma são as temperaturas elevadas, a chuva marcou presença nesse dia e de forma mais ou menos intermitente, ao longo da semana.
O primeiro dia de prova, com 207 km percorridos em cerca de seis horas – uma volta e três quartos a um percurso de trilhos montanhosos para leste e nordeste de Bergamo – caraterizou-se pela pluviosidade abundante, tornando as especiais mais pesadas e escorregadias, aumentando o número de quedas e até de abandonos prematuros.
Face a este cenário, a equipa lusa optou por não arriscar demasiado logo no início, o que se refletiu nos resultados do primeiro dia. Assim, a Seleção Sénior foi apenas a 14ª colocada entre as 20 seleções concorrentes ao Troféu Mundial.
França liderou a tabela, seguida a 34 segundos pela equipa da casa, com Suécia, Espanha e EUA a fecharem o Top 5. O vencedor ‘scratch’ das quatro últimas edições da prova, o espanhol Josep Garcia, foi o mais rápido do dia.
No Troféu Júnior, a equipa nacional, terminou em 17º e último lugar da tabela neste dia inaugural, depois de várias quedas e de Francisco Leite ter sofrido com problemas mecânicos na sua moto que o fizeram perder tempo em duas especiais. A Itália liderava o Troféu Júnior, seguida da França e da Austrália.
Dia 2: Seleção sénior sobe um degrau
Na segunda-feira, tal como previsto, foi repetido o percurso, muito massacrado depois das passagens dos mais de 600 pilotos na véspera.
Naturalmente que os pilotos lusos, agora já com um melhor conhecimento do terreno, tiveram de arriscar mais. Afinal de contas, é esta a única forma de começarem a trepar na tabela classificativa e chegarem aos lugares mais de acordo com as respetivas ambições.
Logo para começar, a chuva deixou de marcar presença, com o sol a brilhar o dia inteiro e temperaturas agradáveis e os tempos a melhorarem, em particular na fase final do dia, já com o piso mais enxuto e sem a traiçoeira lama.
Ainda assim, nem tudo correu bem. Alguns contratempos de ordem técnica nas motos de Rúben Ferreira e Gonçalo Jesus acabaram por ser resolvidos rapidamente, mas afetaram ligeiramente a classificação. Mesmo assim, a Seleção Sénior conseguiu subir um furo na classificação geral do Troféu Mundial, com o ‘capitão’ Luís Oliveira a ser o mais rápido.
Portugal ascendeu, assim, ao 13º posto entre as 20 nações desta que é a principal competição, ultrapassando a Alemanha, e seguia agora a 1m34s da 12ª colocada, a formação da Polónia.
Na frente, a equipa da casa, Itália, passou a França, que liderava ao fim do primeiro dia, assumindo o comando à frente da equipa gaulesa e da seleção sueca.
Já a nossa formação Júnior manteve o 17º e último posto do Troféu Júnior, prejudicada pelos problemas numa das motos. Nota para a estreia positiva de Luís Pinto, a mostrar muita maturidade e rodando bem perto do mais experiente Francisco Leite. A Itália liderava também no Troféu Júnior, seguida de perto pela Austrália e com a França em 3º lugar.
Dia 3: Baixa na Seleção Sénior e subida de um lugar na Júnior
Depois de no segundo dia ter recuperado uma posição na tabela de países concorrentes ao Troféu Mundial, a Seleção Nacional Sénior sofreu nesta data uma baixa, com o abandono de Frederico Rocha logo ao início do dia.
A desistência do piloto luso, com a sua TM 300 a não colaborar logo à partida para o percurso devido a problemas mecânicos insolúveis, fez a formação nacional descer para o 19º e penúltimo lugar da tabela.
O percurso, totalmente novo, com mais de 190 km em linha e seis especiais diferentes, teve menos troços em alcatrão, com algumas trialeiras mais complicadas – quando, até aqui, a diferença fazia-se apenas nas especiais. Luís Oliveira continuava a ser o mais bem colocado dos portugueses, seguido de Rúben Ferreira e Bruno Charrua, mas a possibilidade de entrar no top 10 ficou arredada, uma vez que um piloto desistente faz a sua equipa averbar duas horas de penalização.
Na frente, a Itália segurou a liderança conquistada no segundo dia, com a França agora a 4m02s e a Suécia em 3º lugar a 4m40s.
No que respeita ao Troféu Júnior, o trio composto por Francisco Leite, Luís Pinto e Gonçalo Jesus conseguiu subir um lugar, passando a ocupar o 16º posto, beneficiando do azar da seleção na Nova Zelândia, que viu um dos seus pilotos abandonar, e estando agora a somente 32s da 15ª posição, na posse da equipa belga. Itália, Austrália e França ocupavam os três primeiros lugares na competição Júnior.
Dia 4: o dia mais duro e em que os Juniores subiram um lugar na classificação
O quarto dia levou os pilotos para a zona montanhosa a nordeste de Bérgamo por um novo percurso, o mais exigente até aqui, com trialeiras mais agressivas e técnicas, bem como especiais que tinham sido já utilizadas em provas do Mundial de EnduroGP, algumas com pedra solta e outras fluidas, em relva, típicas do Enduro italiano.
As seleções nacionais lusas continuavam em prova, com a formação Sénior, limitada pelo abandono de Frederico Rocha, a procurar subir na tabela individualmente, uma vez que, no que respeita ao Troféu Mundial, com a penalização diária de duas horas devido ao abandono de um piloto, teria de se esperar por azares alheios para fugir ao atual 19º posto.
Luís Oliveira continuava a ser o melhor colocado da equipa, seguido por Rúben Ferreira e Bruno Charrua.
No que respeita à equipa Júnior de Portugal, conseguiu subir mais um lugar na tabela, passando para o 15º lugar, após terem superado a seleção belga no terreno.
Francisco Leite, Luís Pinto e Gonçalo Jesus continuavam a rodar de forma consistente, a tentar não cometer erros e a manter a evolução, não esquecendo que estes dois últimos são ‘rookies’ absolutos em provas a este nível.Recorde-se que, ao contrário do que se passa, por exemplo, no EnduroGP, nos ISDE apenas o piloto pode mexer na moto e fazer todas as intervenções necessárias.
Na frente a Itália, a jogar em casa, continuava a liderar tanto no Troféu Mundial como no Troféu Júnior. No primeiro caso, a Suécia superou a França na luta pelo 2º lugar, enquanto, nos juniores, foi a vez da França ascender ao 2º posto por troca com a Austrália.
Dia 5: último dia de puro Enduro com os portugueses a manter as suas posições na classificação
Neste dia o percurso que, em teoria, seria idêntico ao de ontem, acabou por sofrer várias alterações em virtude do mau tempo. A muita chuva fez com que as especiais tivessem de ser alteradas e o percurso, por aviso da proteção civil local, também foi modificado, uma vez que não era possível subir ao topo da zona montanhosa a nordeste de Bergamo devido à meteorologia adversa.
Em termos de resultados das seleções nacionais os pilotos têm feito bons tempos, mas, na formação sénior, o handicap de se contar com um piloto a menos não deixa fugir a equipa lusa da cauda da tabela no Troféu Mundial.
No que respeita à formação Júnior de Portugal, também se manteve no 15º posto, a cerca de 4 minutos da Alemanha à sua frente, uma distância que, não havendo azares alheios, será impossível de recuperar no traçado de Motocross Covo MX, a 30 km de Bergamo, que recebe no último dia a tradicional especial de Motocross final.
Com a previsão de chuva e os pilotos de clubes – cerca de quatro centenas – a saírem primeiro, o traçado estava bastante difícil quando entraram em cena as várias seleções nacionais para as suas mangas.
Na frente do Troféu Mundial, a Itália seguia com uma vantagem confortável de 7m54s sobre a Suécia e de 9m48s sobre a ainda detentora do troféu, a França. Já no Troféu Júnior as contas eram mais apertadas, com a Itália a dispor apenas de 59s de vantagem sobre a França, com a Austrália em 3º lugar a 3m27s. Entre as Senhoras, os Estados Unidos caminhavam para o seu terceiro triunfo consecutivo, com a larga vantagem de 35m para a Austrália e 40m para a França.
Dia 6: Consagração da Itália e desempenho positivo da Seleção lusa
No último da 99ª edição da prova mais antiga, disputada sob a égide da Federação Internacional de Motociclismo, os ISDE encerraram em Itália com a tradicional especial de Motocross final, com partidas em linha.
Na pista de Covo MX, utilizada no regional de Motocross italiano e muito bem preparada, com uma enchente de aficionados – tal como, de resto, ao longo de toda a semana, numa região, os Valli Bergamasche, que é o coração do Enduro transalpino – viveu-se mais um dia de festa, começando-se pelos clubes e culminando nas seleções nacionais.
Entre as equipas concorrentes ao Troféu Júnior, ganho pela formação ‘da casa’ à frente da França e da Austrália, Portugal manteve o 15º posto final. Gonçalo Jesus cumpriu a missão de acabar, numa manga em que era o único representante luso. Os seus companheiros de equipa, Luís Pinto e Francisco Leite, caíram ambos na primeira curva da manga em que corriam juntos, encetando depois a sua recuperação.
Já na formação Sénior os nossos pilotos, impossibilitados de sair do 20º posto devido a contarem com o abandono forçado de Frederico Rocha, brilharam nas suas mangas de Motocross.
Ruben Ferreira e Bruno Charrua, a correrem na mesma manga e protagonizaram grandes arranques. Com mangas em que alinham 40 pilotos, ‘Rubito’ saltou para o 2º posto e, no final da volta inaugural, já era líder, posição que manteve até ao fim. Um triunfo simbólico, que serviu de consolação para as cores lusas e foi abrilhantado pelo 2º lugar de Bruno Charrua.
Na derradeira manga, onde se encontram os mais bem colocados da prova, alinhou Luís Oliveira, que também fez um grande arranque no grupo da frente, passando depois a rodar em 2º lugar até que uma queda o fez baixar posições, terminando mesmo assim no top 10.
No Troféu Mundial, a vitória também sorriu à Itália, que liderou desde o segundo dia, com a Suécia e a França a completarem o pódio. Estados Unidos, Austrália e França foram, por esta ordem, os três primeiros no Troféu de Senhoras, enquanto, a nível individual, o espanhol Josep Garcia fez história ao vencer pela quinta vez consecutiva os Seis Dias.
Para os portugueses, foi uma prova para aprender e evoluir, mas também um peso em cima dos ombros em termos organizativos, começando já a preparação para a 100ª edição dos Seis Dias, que se vai disputar em Portugal. Importa fazer dos ISDE 2026 uma prova especialmente marcante, capaz de honrar os 100 anos da competição e de mostrar a nossa capacidade organizativa!
andardemoto.pt @ 1-9-2025 13:42:42 - Texto: Pedro Pereira
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