Pedro Pereira

Pedro Pereira

Só ando de moto em 2 locais: na estrada e fora dela!

OPINIÃO

Andar de Moto… com chuva!

Portugal, em termos climatológicos, é um verdadeiro paraíso para os motociclistas, penduras incluídos. É possível andar de moto em todas as estações do ano sem rigores extremos de calor, frio ou vento. Não há tempestades de areia e mesmo a chuva não costuma ser abundante a ponto de complicar (muito) a utilização da moto.

andardemoto.pt @ 1-3-2020 08:08:00 - Pedro Pereira

No momento em que estou a escrever este artigo está a chover. Olho pela vidraça e vejo que as bátegas caem com força. Não batem leve, levemente como no célebre poema de Augusto Gil e nem sequer está frio para nevar, mas sei que o trânsito está caótico e não é apenas para as bandas da capital.


É sabido, por todos, que as chuvas, sobretudo as primeiras da temporada, causam entropias no trânsito numa escala gigantesca e que os acidentes, muitas vezes apenas pequenos toques e quedas, aumentam numa escala inacreditável.
Também facilmente se percebe, mesmo sem qualquer base científica, que o número de motociclistas decresce bastante, sobretudo aqueles que não fazem da moto o seu ganha pão, como o pessoal que faz entregas ou as forças de segurança.

A pergunta que fica no ar é: porque é que com chuva há muito menos gente a andar de moto? Segurança? Comodismo? Medo da chuva? Desconforto? Um pouco de todas?

Andar de moto com chuva no asfalto: ameaças e oportunidades


                            Afirmar que se muito mais gente andasse de moto, se iria conseguir resolver todos os problemas da mobilidade, reduzir substancialmente a poluição e a dificuldade de estacionamento… seria exagerado da minha parte, mas o facto é que os veículos de duas rodas, aparte a vertente de lazer, são excelentes para a fluidez do tráfego e diminuir os níveis de contaminação do ar. Sobretudo nos grandes centros urbanos.

Ora, se com a chuva o trânsito é mais caótico… faria ainda mais sentido usar a moto nesses dias, sobretudo se não for para transportar mais que duas pessoas ou evitar os transportes públicos, insuficientes e ineficientes, como é comum…

Porém, não é isso que sucede. Assim que caem umas gotas é ver muitos motociclistas a deixarem as suas montadas no estábulo e a optarem por outros meios para se deslocarem, com especial destaque para os automóveis! Será que as motos hibernam ou se constipam? Ou são apenas os/as donos/as? Claro que também há quem ande de mota nas 4 estações e até nem sequer tenha automóvel, que, apesar de felizmente serem cada vez mais, não deixam de ser (ainda) uma minoria!

É um facto que com chuva o piso fica mais escorregadio e traiçoeiro, e que muitos condutores/as conduzem exatamente da mesma forma, sem adequarem a condução ao estado da via e sem se preocuparem com o estado dos pneus… e tudo isso potencia o acidente, seja em que veículo for!


Por outro lado, andar de moto com chuva implica equipamento adicional para maior proteção e conforto face aos elementos. Andar molhado e gelado, nomeadamente nas extremidades (mãos e pés) exponencia o cansaço, o desconforto, em suma: o risco de acidente!

Quem não se prepara minimamente para andar à chuva (com calçado adequado, roupa mais quente e impermeável, tal como as luvas, e capacete preparado para o embaciamento) talvez seja mesmo melhor não andar de moto nessas circunstâncias! É melhor para eles… e para os outros!

Naturalmente que a própria moto pode fazer toda a diferença e há muitas com uma excelente proteção para as intempéries. Mas não são todas! Já a maioria das scooters estão como “peixe na água” nessas circunstâncias mas, mesmo assim, há que ter especial cuidado e atenção para minimizar o risco e promover a segurança.

Algumas dicas para andar de moto com chuva

O que a seguir apresento são apenas algumas ideias gerais que podem ajudar também nassituações em que os elementos estão contra nós, situação em que o nosso nível de atenção deve ser (ainda) maior.

Pneus: 
São o que nos agarra à estrada. É complexo (e caro) andarmos a mudar de pneus como se faz, por exemplo, no Moto GP, consoante a meteorologia, mas a um nível mais simples é crucial ver a pressão dos mesmos de forma regular e a ter atenção especial ao desgaste. Nem sonhem em facilitar nesta matéria, mesmo que sejam peritos em andar à chuva como o “nosso” Falcão! 
Já agora, os pneus de tacos (off road) são um desafio ainda maior à chuva! Ótimos fora da estrada, mas no asfalto…

Armadilhas na estrada: 
São tantas, mas tantas! Deixo apenas alguns dos exemplos mais conhecidos e perigosos, como as manchas coloridas de óleo e gordura, as juntas de dilatação em pontes e afins, buracos com água em que não se vê o fundo, lençóis de água, tampas de esgoto, carris (de elétricos, comboio…), gravilha ou lama, selante de asfalto, piso de calçada, gelo, geada, e a lista bem que podia continuar, sendo que há estradas que mais parecem um campo minado.

Iluminação: 
Quantos de nós verificam a regulação da iluminação nos nossos veículos? Se temiluminação adicional, de origem ou não, se está devidamente alinhada? Se os farolins traseiros funcionam? Se a moto tem piscas (e costumam usá-los)? Recomendo ainda, e vivamente, o uso de colete refletor por cima do blusão, sobretudo em condução noturna ou em zonas de nevoeiro. Não é para ver melhor. É para sermos vistos pelos outros! Sobretudo em caso de queda.

Limpeza da moto: 
Pode parecer pouco relevante, mas não é. Quando foi a última vez que verificaram se os discos de travão tinham gordura? Como está a transparência das óticas? Estão “queimadas” pelo uso? O assento, onde sentam o rabiosque está limpo? Não escorrega? E os punhos que servem para agarrar e manobrar a moto? Estão OK ou escorregam como visgo e estão completamente gastos, implorando para serem mudados?

Capacete: 
É minimamente adequado para o mau tempo? é de cor clara? Tem sistema anti embaciamento, vulgo pinlock? E a viseira como está? Tem riscos, que são uma verdadeira armadilha, nomeadamente com os reflexos das luzes? É fácil de desmontar para ser bem limpa regularmente? Veda bem? E o interior do capacete, qual o seu estado? Será que não vale a pena investir num novo, apenas para o tempo mais frio e chuvoso? 

Luvas: 
Quantos pares de luvas têm? Quais são específicas para o frio e/ou chuva? Mesmo osprotetores de mãos e os punhos aquecidos (sou fã, com temperaturas muito baixas) nãoresolvem tudo! Mãos molhadas e enregeladas reagem mais lentamente e exercem menordomínio sobre a mota… o suficiente para não conseguir evitar uma situação inesperada!

Blusão/calças impermeáveis: 
Existem muitas soluções, para diferentes gostos e carteiras, pelo que não há justificação para andar de moto “molhado como um pinto”. E aqui as scooters têm uma vantagem adicional com os chamados “cobre pernas” ou aventais, que são realmente imprescindíveis para combater sobretudo o frio. Podem até optar por um fato de chuva, impermeável, de duas peças ou de apenas uma, tipo fato de macaco, a usar por cima do resto da roupa, mas não facilitem! O conforto é o nosso melhor amigo!

Calçado: 
Já vi gente que usa simplesmente “botas de borracha” ou galochas e fico aterrado!Sugiro botas de inverno mesmo impermeáveis, mas respiráveis (há imensa oferta), mas podem usar umas menos invernosas e colocar por cima umas “cobre botas”, também conhecidas por polainas que garantem que se chegue ao destino com pés enxutos e quentinhos! Simples e prático! Grande invenção que já existe há décadas e foi adaptada para as motos!

Ajudas eletrónicas à condução: 
Nestas circunstâncias as ajudas eletrónicas à condução são ainda mais úteis! Controlo de tração, ABS, embraiagem deslizante, modos de condução (onde costuma existir um específico para chuva - rain) acabam por ser uma ajuda tremenda em condições adversas e podem constituir um importante fator de decisão para comprar a moto x em detrimento da y! Claro que são um investimento adicional, mas se vos evitarem uma queda… ficam logo amortizadas! Sou ainda mais fã do “anjo da guarda eletrónico” nestas circunstâncias!

Saber ceder:
Por vezes, teimar em fazer não é uma virtude. Nem mesmo para quem anda de moto nas 4 estações do ano! Ainda há pouco tempo o granizo era tanto que decidi parar a moto debaixo de um viaduto e aguardar que passasse, apesar de já estar atrasado! Se cai uma chuva diluviana ou está a nevar, se há vento intenso ou nevoeiro cerrado… talvez seja um sinal de que o melhor a fazer é mesmo parar, ou nem sequer pegar na moto! O risco pode não justificar! Não vale a pena sermos fundamentalistas, sobretudo se pudermos optar!

Praticar: 
Já experimentaram, numa estrada deserta, com piso molhado, travar fortemente, primeiro apenas com a roda de trás, ver as reações da mota, depois apenas com a roda da frente e, por fim, com ambos os travões, independentemente de terem ou não ABS? Pois deviam!
Se não estiverem “confortáveis” com a chuva, pratiquem uma e outra vez! Poderá fazer a diferença entre parar em segurança ou embater num qualquer obstáculo!

Antecipação: 
Deixei esta para o final, mas podia ter sido logo a primeira! É a minha regra de ouro para andar à chuva (e também fora dela)! Além de me conhecer a mim e à moto, tento antecipar o que os outros vão fazer, para agir preventivamente e, ao mesmo tempo, adoto um ritmo mais suave de utilização do acelerador, dos travões e até dos movimentos em cima da mota, usando uma mudança acima daquela que costumo usar, escolhendo as trajetórias (mais largas e secas, se possível). E garanto que tem resultado (relativamente) bem!

Fora de estrada com chuva
Aqui o paradigma é completamente oposto! Assim que começa a chover, “brotam como cogumelos” os praticantes de off-road! Seja em duas ou mais rodas, aumenta exponencialmente o número de motos nos campos, em especial aos fins de semana! Imensas motos que só saem da garagem nesta altura do ano têm então a oportunidade de desbravar montes e vales! Terminou a letargia!

No off-road a chuva é uma bênção enorme! Também assim é na natureza, nas barragens… 

Com a chuva começa a renovar-se a vegetação para começa a florescer, o terreno começa a ficar menos seco e duro, o pó deixa de fazer parte da paisagem, os cursos de água ganham um novo alento e mesmo as lamas e as charcas de água são uma verdadeira diversão!

Por outro lado, as temperaturas começam a descer e para a prática de TT isso é fantástico porque, ao ser uma atividade com elevado grau de exigência física, menos calor é sinónimo de menos desidratação, e consequentemente de mais divertimento e segurança. E com a chuva,a lama passar a ser uma amiga e o pó uma miragem!

Mas para quem gosta de andar fora de estrada, mesmo que seja apenas numa perspetiva completamente descontraída, a chuva é um elemento essencial e muito querido!

Porém, nem tudo são maravilhas! Quem já andou, por exemplo, fora de estrada com um capacete de TT (mesmo com os óculos) conhece bem a sensação de as gotas de água parecerem agulhas a picar o rosto! Nem mesmo abrandar o ritmo resolve o problema! Se insistirmos, chega mesmo a ser muito doloroso! E a lama nos óculos (mesmo com sistemas de roll-off ou tear off) é muito desagradável e tentar limpá-la com a luva só piora as coisas e acaba por riscar a lente!


Noutra perspectiva, o piso muito escorregadio e enlameado é um desafio tremendo à nossa capacidade de gerar tração na moto, de mater o equilíbrio e fugir das ratoeiras do terreno ou, simplesmente, de evitar cair numa atravessadela maior que o esperado! Parece que as rodas da nossa moto ganham vida própria e a lama acumula-se em todo o lado, roupa incluída! Uma delícia para alguns… para outros um suplício! Faço parte dos primeiros!

Já andar em areia pode ser fantástico! Com piso seco a areia pode parecer algo traiçoeira, sobretudo para quem não tem prática. Molhada a areia fica mais compacta e o gozo é tremendo! Curvar é uma delícia e damos por nós a andar de moto de uma forma que não pensávamos ser capazes, em especial a curvar, apenas com o acelerador e a inclinação que quase fazem tudo sozinhos!

Em suma, para andar fora do asfalto, a chuva consegue trazer um encanto muito especial e momentos de magia que seriam completamente impossíveis com o piso mais seco e duro! Por isso a minha sugestão é esta: aproveitar ao máximo, mas sem loucuras e nunca abdique do equipamento de segurança!
Finalizando, a chuva, o tempo mais húmido e frio, a menor visibilidade, o piso mais escorregadio, os dias mais pequenos… representam novos riscos e ameaças, mas podem ser também novas oportunidades, desafios para testarmos a capacidade, de nos superarmos!

Da minha parte, a sugestão é clara: aproveitem esta mudança de cenário, mas tendo presentes os riscos, aproveitando as maravilhas da tecnologia e o uso do equipamento adequado! Se puderem, não deixem de andar de moto por causa da chuva!


Outros textos de Pedro Pereira:

andardemoto.pt @ 1-3-2020 08:08:00 - Pedro Pereira


Clique aqui para ver mais sobre: Opiniões