Teste Honda ADV 350 vs Honda X-ADV- Questionar o Dobro

Duas máquinas cujas semelhanças assumidas pela marca nos deixaram curiosidade de as por à prova, lado a lado.

andardemoto.pt @ 13-4-2022 01:15:32

Depois de termos rolado com a Honda ADV 350 na Sicília, na sua apresentação internacional, e cujas primeiras impressões pode ler se clicar aqui, ficámos com alguma curiosidade, uma comichão intelectual que só têm aqueles que ocupam todo o seu espaço mental a pensar em Andar de Moto.

Se as semelhanças eram assumidas pela marca, decidimos colocar a novíssima ADV 350 no mesmo patamar com a X-ADV e tentar perceber os seus limites. E porque as comparações acabam e começam no preço, esta injustiça só nos poderia trazer o gozo de testar duas máquinas que vão além do seu propósito. E em boa verdade, porque não sair fora da caixa?

Num primeiro olhar, as silhuetas confundem-se, seja pelas dimensões generosas da 350, ou pelo design da secção frontal, onde os faróis e a sua assinatura LED nos dão o mote de cumplicidade entre ambas.

O namoro continua na estrutura de suporte ajustável do ecrã frontal, no formato do display, no guiador tipo moto de enduro, largo e alto, prometendo estabilidade e controlo nas situações mais extremas. Pneus mistos, e aquele ar de calça arregaçada das suspensões dianteiras de curso generoso completam uma imagem claramente associada à aventura.

Contempladas mais a fundo, começam a surgir pormenores que diferenciam e elevam a X-ADV para um tipo de brinquedo mais sério. O display TFT a cores apresenta-nos um conjunto de informações associadas ao arsenal electrónico que dispõe, temos mapas de condução com settings específicos e, junto aos punhos, uma parafernália de comutadores indicam-nos que esta moto se serve da tecnologia para alterar a sua personalidade.

Há uma sensação de qualidade e robustez na sua montagem e posicionamento, algo que se estende à sua irmã de menor cilindrada. A intenção de as tornar à prova de um uso mais intensivo é clara, mais uma vez o espírito aventureiro determina a forma e a função.

Na ADV 350 encontramos um LCD de contraste negativo com todas as informações essenciais, um conta-rotações e velocímetro que dominam o enquadramento e os valores de consumo relativos aos odómetros parciais.

Surge a primeira grande demonstração de uma filosofia mais simplista, no capítulo da electrónica temos um controle de tração modulável em três níveis, a 100%, a 50% ou desligado. Um comutador específico no punho esquerdo torna a operação bastante directa, sendo que para desligar completamente o mesmo, a máquina tem se encontrar estacionária. 

Aproveitando o sistema de chave inteligente, apenas temos de ligar a ignição para darmos início ao desafiante jogo das diferenças…

A posição de condução é bastante semelhante em ambas, uma ergonomia simpática para os condutores de maior estatura, muito embora as dimensões da X-ADV sejam claramente maiores, algo demonstrado na maior altura do assento (820 mm para 795 mm na ADV 350).

De braços bem abertos, pés bem plantados no piso plano, ao percorrermos os primeiros metros rapidamente sentimos a diferença na agilidade, as correções de trajetória e mudanças de direcção são bem mais directas na 350.

A física não engana, e os 50 kg de diferença fazem-se sentir nas manobras mais apertadas. Numa utilização citadina a vantagem clara de uma moto mais pequena será sempre uma mais valia, mas até agora não vos estamos a dizer nada de novo…

A Adv 350 consegue ser bastante lesta na maneira como carrega velocidade

A Adv 350 consegue ser bastante lesta na maneira como carrega velocidade

Até a nível de uma praticabilidade quotidiana, a maior capacidade de arrumação debaixo do assento da 350 é demonstrativo deste à-vontade urbano.

A X-ADV vinga-se no truque de conseguir encaixar um capacete com pala (estilo adventure), fruto da maior profundidade e do formato do seu compartimento debaixo do assento.

A clara vantagem numa realidade marcada pelo trânsito e pela funcionalidade, poderia agora esbater-se quando dávamos azo à disponibilidade motriz. Chegando às vias mais rápidas, a pequena ADV certamente iria acanhar-se perante o poder de mais um cilindro no motor.

Os números são reveladores de uma supremacia evidente, são 745 cc para 330 cc, 58 para 29 cv e 69 para 31,5 Nm de diferença. Practicamente o dobro em todos os parâmetros deveria significar um fosso gigante na performance comparada, mas a verdade é que a ADV 350 consegue ser bastante lesta na maneira como carrega velocidade, surpreendente, diríamos mesmo.


A capacidade de entrega da X-ADV é obviamente superior

A capacidade de entrega da X-ADV é obviamente superior

A capacidade de entrega da X-ADV é obviamente superior, sobretudo no modo Sport (o modo mais desportivo, seguido do STANDARD, RAIN, GRAVEL e USER), onde o bicilindrico canta com mais fulgor e a transmissão DCT fica mais agressiva na sua actuação.

A diferença no ímpeto é clara na aceleração, mas a progressividade da ADV 350 faz com que consiga atingir os regimes elevados com uma desfaçatez desconcertante. Falamos de índices de velocidade elevados, o que significa que a pequena adventure não se coíbe de manter ritmos de Autoestrada com a capacidade de ultrapassar se necessário.

Nestas alturas gostaríamos que o ajuste do vidro deflector da 350 tivesse um mecanismo semelhante ao da X-ADV, em que conseguimos operá-lo com uma só mão. A protecção aerodinâmica de ambas é muito semelhante, com vantagem para a última, devido às maiores dimensões do ecrã.

compostura da X-ADV nas oscilações de menor frequência é digna de nota

compostura da X-ADV nas oscilações de menor frequência é digna de nota

A mais valia de uma unidade mais performante em estrada aberta não significa que o conjunto ciclístico acompanhe com a mesma supremacia.

A inércia associada ao maior peso, obriga a um maior esforço das suspensões na tentativa de debelar os movimentos da máquina, sobretudo nas transferências de massa mais pronunciadas.

A compostura da X-ADV nas oscilações de menor frequência (nas curvas de maior apoio, por exemplo) é digna de nota, sente-se bem agarrada ao asfalto. Neste cenário a 350 consegue acompanhar com brio, mas o duplo amortecedor traseiro carece de um ajuste de pré-carga, facto que poderia ajudar a afinar melhor o seu comportamento, especialmente quando estamos a transportar um passageiro, ou uma top-case cheia.

As suspensões da Adv 350 permitem-lhe uma inserção em curva plena de confiança

As suspensões da Adv 350 permitem-lhe uma inserção em curva plena de confiança

A grande revelação encontra-se no eixo dianteiro. A postura assertiva das suspensões da Adv 350 permitem-lhe uma inserção em curva plena de confiança. A forquilha invertida sobe até à coluna de direcção (como uma moto convencional), e a sua progressividade transforma o comportamento desta scooter numa máquina cheia de atitude positiva na roda da frente.

Perdendo nas saídas em potência, não foram poucas as situações em que compensamos tal facto com uma velocidade de entrada em curva superior à da X-ADV, que se mostrava mais vaga nas sensações transmitidas.

Claro que o brilhante funcionamento da DCT no modo Sport  (ou até mesmo a capacidade de podermos fazer o override manual da mesma) ajuda como travão motor, sendo que o sistema de travagem X-ADV se encontra sempre à altura dos acontecimentos, não se pode dizer o mesmo do feeling algo amorfo da unidade traseira da ADV 350… 

Com alguma surpresa, no capítulo dinâmico (enquadrado no asfalto), a pequena aventureira tem um comportamento ciclístico exemplar, conseguindo compensar a falta de cavalagem com muita capacidade de improviso. Mesmo se considerarmos alguma brusquidão nos ressaltos mais agressivos, consegue comunicar com bastante eficácia tudo o que se passa ao condutor.

Faltava-nos testar o carácter aventureiro destas máquinas e perceber se qual a distância que as separa. Aqui sim, o arsenal tecnológico da X-ADV entrava em pleno em acção, com o modo Gravel a parametrizar um controlo de tracção menos intrusivo e a transmissão DCT a alongar as relações de caixa para permitir uma maior duração do efeito de tracção da roda traseira.

A ADV 350 não consegue ter esta mesma capacidade de enfrentar os trilhos mais agressivos

A ADV 350 não consegue ter esta mesma capacidade de enfrentar os trilhos mais agressivos

O sentimento mais perdulário das suspensões encaixava perfeitamente neste cenário, onde os movimentos mais agressivos eram filtrados de modo muito saudável. A unidade por nós ensaiada tinha os poisa pés específicos de fora de estrada (para além das crash-bars, faróis auxiliares, defletores aerodinâmicos para as pernas e extensões nas protecções de punho, tudo parte do opcional Adventure Pack), permitindo um controlo superior quando pilotamos de pé.

Por mais que se queira, a ADV 350 não consegue ter esta mesma capacidade de enfrentar os trilhos mais agressivos. Não tanto pela falta de potência, mas mais pelo acerto algo rijo da suspensão, que aliado ao menor peso, a fazem ressaltar em demasia, perdendo alguma tracção.

Mesmo assim, havendo a oportunidade de fazer uns estradões, a ergonomia adaptada ao fora de estrada, e um eixo da frente com uma boa leitura do piso, faz com que a pequena aventureira não se negue a dar-nos uns sorrisos. Desde que não se imaginem grandes e monumentais atravessadelas com o controle de tracção desligado…


A novíssima ADV 350 tem tudo para ser um caso de sucesso

A novíssima ADV 350 tem tudo para ser um caso de sucesso

A novíssima ADV 350 tem tudo para ser um caso de sucesso. Não só encaixa perfeitamente no paradigma da moda, vendendo aventura, como consegue ser uma moto com reais aptidões urbanas e sobretudo dinâmicas. Custa metade do modelo em que se inspira, mas não é meia moto em comparação directa. 

A X-ADV conseguiu atingir o seu sucesso à custa de uma postura de SUV das máquinas de duas rodas, uma moto divertida que conseguiu vencer as barreiras do preconceito do que uma maxi-scooter era capaz.

Não sendo tão rápida, tão robusta (algo que apenas a maior massa consegue oferecer à solidez ciclística), nem tão eficaz no fora de estrada…a Honda Adv 350 é intuitiva, ágil, e apresenta uma estabilidade ímpar para uma scooter.

Aliado a um motor que não se envergonha de atacar as vias mais rápidas com pulmão de sobra, e temos aqui algo que nos faz pensar que nem sempre “tanto mais” é “tanto melhor”.

A grande questão é esta:

Se o dinheiro não fosse problema, não seria óbvio a opção pela máquina maior. Como em tudo, a utilização dita a especificidade da escolha. E nós, como miúdos numa loja de doces, agradecemos a oferta.

Veja a ADV 350 em pormenor:

Veja a X-ADV em pormenor:

andardemoto.pt @ 13-4-2022 01:15:32


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