Henrique Saraiva

Henrique Saraiva

Gosto de voltas e passeios de moto aqui ao pé… e mais além!

OPINIÃO - Viagens ao Virar da Esquina

Pelos caminhos de IBN DARRAJ AL-QASTALLI

Quando estudámos a História de Portugal nos bancos da escola, quase não percebemos a existência de um hiato que mal é abordado. Digamos que não se refere propriamente a Portugal enquanto nação, mas sim ao território que ocupamos desde 1143.

andardemoto.pt @ 5-4-2020 17:07:45 - Henrique Saraiva

Depois do período de domínio romano, contemporâneo com o início da Cristandade já lá vão cerca de 2 mil anos e cujos testemunhos são conhecidos ao longo do território, e do domínio dos povos bárbaros que lhe sucederam, principalmente por parte dos Visigodos, a Península Ibérica foi ocupada pelos muçulmanos. Num longo período, de 711 a 1492, diversos povos cujo denominador comum era a fé muçulmana - razão pela qual não é correcto falar em domínio árabe, porque tal apenas aconteceu em parte, uma vez que épocas houve em que a dominação era dos povos berberes do norte de África - colonizaram a quase totalidade da Península Ibérica.

E pode bem falar-se de colonização porque as influências culturais desses quase 8 séculos de domínio (Portugal existe como nação há 8 séculos e picos...) estão em muito do que somos e fazemos. Um exemplo muito básico? Alferrarede, Alcácer, Alcáçovas, Aljezur, Alcoutim....Algarve. A tal partícula “Al” em comum na toponímia tal como na designação que à época era dada ao território dominado: Al-Andaluz!

Hoje vou contar-vos uma história que remonta a este período e na qual “esbarrei” quando visitava um local, ali no sotavento algarvio, quase a chegar a Espanha, que nos esmaga pela sua beleza.

Uma pequena pérola chamada Cacela-Velha.

E a história de um viajante em Viagens ao Virar da Esquina a ANDAR DE MOTO!

A história de Cacela-a-Velha

A pequena fortaleza e as suas muralhas albergam no seu interior meia-dúzia de casas, uma igreja, um poço e uma riquíssima história. Que mais do que batalhas passadas recorda sim um passado e presente intimamente ligado à poesia. Talvez a beleza da paisagem seja a inspiração....

Está edificada no cimo de uma pequena arriba fóssil, antiga de 1 milhão de anos, que domina este extremo da Ria Formosa e está separada da ondulação do mar pela ilha-barreira que nos dá uma praia maravilhosa.

Estrategicamente faria parte da linha de defesa da costa, juntamente com as fortificações de Castro Marim, de um lado e de Tavira, do outro. Esta exposição ao mar fez com que desde tempos muito antigos fosse ponto de passagem de comerciantes – gregos e fenícios - ou de piratas que atacavam esta linha de costa.

Presume-se sem qualquer certeza que possa ter sido Cunistorgis, a principal povoação dos Cónios – um povo pré-romano que habitava o que hoje é o Algarve e o Baixo Alentejo (antes do Séc VIII a.C.).

Certo é que os romanos lhe reconheceram importância. Mas foram os árabes, a partir de 711 da nossa era, quando as tropas árabes e berberes de Tarik Ali Ibn Zyad conquistaram o Al-Andalus, que a promoveram e deram prestígio, ao ponto de ser uma das mais importantes cidades da região sul da Cora de Ossónoba (“distrito de Faro”). O seu apogeu deu-se no Séc. X e chamar-se-ia Hisn-Kastala, Qastallat Dararsh, Cacetalate ou Cacila (donde derivaria o actual Cacela)

Foi conquistada pelos cristãos em 1240, tendo D. Dinis outorgado foral em 1283. No Séc XIV e depois, devido às alterações morfológicas da linha de costa e principalmente pelos ataques de pirataria, a população veio a concentrar-se mais no interior dando predominância à actividade agrícola, ficando o antigo núcleo praticamente habitado pelos seus Senhores.

Bastante afectada pelo Terramoto de 1755, é-lhe retirado o privilégio de concelho em 1775 por D. José I.

É defronte de Cacela, no areal onde actualmente se situa Manta Rota, que em 24 de Junho de 1833, o Duque de Terceira e as suas tropas desembarcam. Uma pequena força de 2.500 homens que depois de vencer a distância, viria a entrar triunfante em Lisboa assinalando a vitória liberal sobre o exército absolutista de D. Miguel, precisamente um mês depois, a 24 de Julho, dando fim à guerra civil que aqueles travavam contra as tropas liberais de D. Pedro.


Cacela, Terra de Poetas

Em 958 nasceu aqui Ibn Darraj, tendo recebido o epíteto al-Qastalli (de Cacela), que viria a ser o maior poeta árabe da sua época.

Homenagem a Ibn-Darraj

Homenagem a Ibn-Darraj

O seu prestígio era tal que integrava a corte na qualidade de poeta oficial e escritor redactor do Estado Califal do poderoso Almançor pelos finais do Séc X. Percorreria os domínios árabes da Península Ibérica e viria a morrer em 1030, tendo deixado vasta obra que abrange 3 períodos fundamentais da história do Al-Andalus: o esplendor do Estado Califal, a guerra civil que se lhe seguiu e o período dos reinos taifas.

O poeta foi um dos grandes viajantes medievais do Gharb al-Andalus devido à posição que ocupava na Corte, confessando, através da sua escrita, as adversidades e dificuldades que enfrentara ao viajar:

“tive, em vez de uma longa vida de doçura,

a travessia de vales e montes lamacentos;

em vez de noites breves sob véus

o temor da viagem no seio de infindável treva;

em vez de água límpida sob sombras

o fogo das entranhas queimadas pela sede;

em vez do perfume errante das flores

o hálito esbraseado do meio-dia;

em vez da intimidade entre ama e amiga

a rota nocturna cercado de lobos e de génios

em vez do espectáculo dum rosto gracioso

desgraças suportadas com nobre constância”

A memória de Ibn Darraj está bem presente em Cacela.

Ibn Drraj na toponímia local

Ibn Drraj na toponímia local

Mais recentes são as presenças nas obras de Sophia de Mello Breyner Andresen ou Eugénio de Andrade entre muitos outros.

Uma pequena localidade, mas que serviu e serve de alfobre de inspiração para poetas que por sua vez, também a consagram. É possível observar, em muitas das paredes, azulejos com poemas a ela dedicados e que evocam esta fonte de inspiração.


Quanto à paisagem e à beleza que os nossos olhos podem contemplar, tanto na conservação do edificado típico, como do areal da Ria Formosa que se estende para nascente e poente, aos nossos pés, as imagens apenas lhe podem fazer uma pequena justiça.

Porque verdadeiramente o que merece é uma visita!

E recordarmos os passos do poeta Ibn Darraj al-Qastalli.

Outros artigos do Henrique Saraiva:

andardemoto.pt @ 5-4-2020 17:07:45 - Henrique Saraiva


Clique aqui para ver mais sobre: Opiniões