Henrique Saraiva

Henrique Saraiva

Gosto de voltas e passeios de moto aqui ao pé… e mais além!

OPINIÃO - Viagens ao Virar da Esquina

EN124 - A outra estrada do Algarve!

Quando falamos em estradas algarvias, logo nos vem à mente a famigerada EN125. Perigosa, congestionada, mais uma via urbana pejada de turistas do que uma verdadeira estrada.Para lá da Via do Infante, uma outra estrada atravessa o Algarve. A Estrada Nacional 124 começa em Portimão, ruma a norte até Silves e aqui toma o rumo Poente-Nascente, desaguando perto de Alcoutim com vistas para o Guadiana.

andardemoto.pt @ 26-5-2020 16:32:43 - Henrique Saraiva

Escolhi como ponto simbólico para o início do percurso a Praia da Rocha. Há muito que a não visitava. Está muito diferente relativamente ao que a memória retinha. Significa que não passava por lá há muito, mesmo muito tempo!

O objectivo era percorrer esta estrada que atravessa todo o barrocal algarvio, sem grandes paragens...apenas as necessárias para admirar a paisagem e algumas fotos. E desfrutar das suas muitas curvas e contracurvas. Uma viagem mista de diversão e contemplação.

De Portimão até Silves, caminho sem história e com algum trânsito. Atravessei Silves - a Cilpes dos Romanos ou a Al-Shilb da época muçulmana - que foi a anterior capital da região do Algarve, situada na margem do Rio Arade.

Hesitação!!! Sigo em frente ou vou directo à Califórnia

Hesitação!!! Sigo em frente ou vou directo à Califórnia

Depois até S. Bartolomeu de Messines. Cruzei as principais estradas que trazem, de norte até ao Algarve, os turistas e os que demandam o extremo sul do País: a A6 e o IC1 ou, como antigamente era chamada na era em que as estradas nos eram tão queridas que até tinham nomes, a "estrada do Algarve" para aqueles que vinham de norte e a "estrada do Alentejo" para quem viajava de sul...

Até este ponto, a estrada não tem, do ponto de vista de condução ou paisagístico, grande interesse, não seja o de conhecer algumas das pequenas povoações do interior algarvio e que ainda têm o encanto genuíno tão diferente do estereótipo do Algarve dos folhetos turísticos.

A tão tipica toponímia portuguesa surpreende-nos. E surge a dúvida: continuo...ou vou já ali, à Califórnia? Segui o plano inicial. Temos que saber resistir às tentações!

É a partir daqui que a diversão começa! Passo por Alte e....estou na Serra do Caldeirão. A travessia mais famosa desta serra é a que é feita pelas 365 curvas da EN2. Mas garanto, pela EN124 não lhe fica atrás. Não contei as curvas...mas são muitas, diversas, divertidas!

Salir passa rápido e, curvas e contracurvas sucessivas, chego a um ponto fundamental deste dia: o cruzamento da EN124 com a EN2 no Barranco do Velho.

Cruzamento da EN124 com a EN2

Cruzamento da EN124 com a EN2

Com uma nota muito curiosa: fazia precisamente um ano que por lá tinha passado, vindo de Chaves e quase a chegar a Faro, cumprindo os 738,5km da EN2. E mais ainda, praticamente à mesma hora.

Celebrada a efeméride…siga a viagem!

Se até aqui já tinha havido diversão, a seguir seria um festim até à aldeia do Pereiro onde uma surpresa me aguardava.

Até lá, paisagens deslumbrantes a perder de vista pelo barrocal algarvio. Estrada sinuosa e muito divertida, com bom piso e tráfego quase inexistente!

Um regalo!


Ao chegar ao Pereiro…uma movimentação estranha e a estrada pejada de gente. Uma feira, daquelas tradicionais, com as inúmeras barracas que vendem desde atoalhados, sapatos, utilidades domésticas ou fatiotas mais ou menos domingueiras, até aos produtos típicos da região e não só – os cheiros dos queijos e enchidos andavam pelo ar – bordejavam a estrada aqui feita rua principal. Até um daqueles vendedores de banha-da-cobra que anunciam aos seus potenciais compradores que “não levam um, não levam dois…mas levam 3 belíssimos cobertores…ou toalhas… ou o que for…”, sempre com inegáveis vantagens pela beleza e qualidade do produto! Já para não falar no preço. Quase dado…

Era a Feira de S. Rafael (curiosamente o santo padroeiro dos motociclistas!).

O GPS antecipou alguma necessidade e mandou-me para uma rua lateral…onde 2 ou 3 rulotes de bifanas e cachorros abasteciam os mais esfomeados. O meu caso, portanto…

As surpresas não tinham terminado. O simpático proprietário de uma delas também é motociclista. Adivinhem lá qual foi o tema de conversa…

Ainda havia alguns quilómetros a fazer, pelo que avancei. Uma paragem para sinalizar o final da EN124.

Final da EN124

Final da EN124

Na realidade, a EN124 termina a 8km de Alcoutim. Marcado o ponto, segui até aquela vila ribeirinha, em que o Guadiana a separa da espanhola Sanlúcar de Guadiana, debruçada num anfiteatro natural sobre o rio, como quem se deleita com vista para a vizinha portuguesa.

O Rio Guadiana é aqui rei. Navegável até bem mais a montante, permite que a paisagem seja enfeitada com alguns barcos de recreio.

Casario branco, ruas estreitas encimadas por um nobre e altaneiro castelo a recordar a má vizinhança, em algumas épocas passadas, com o pessoal da outra margem.

A jornada estava concluída e o objectivo atingido. Todavia, algo me chamou a atenção: a "Marginal do Guadiana". O nome prometia...

Como ia para sul, em vez de recorrer à EN122 que me conduziria directamente a Vila Real de Santo António, optei pela M507, a tal Marginal do Guadiana. Esta estrada, com piso regular e muitas curvas, acompanha o curso do rio e a própria orografia do terreno. Ora sobe, ora desce, umas vezes junto à margem, outras um pouco mais afastada. Linda estrada! A convidar a um ritmo de passeio para assim desfrutar das diversas cambiantes da paisagem.


No Montinho das Laranjeiras, passo por umas escavações arqueológicas que bem atestam a antiguidade da presença da civilização por estas paragens. Depois Guerreiros do Rio e Foz do Odeleite onde a estrada inflecte para o interior. Ainda se vislumbra a albufeira da Barragem de Odeleite.

Barragem de Odeleite

Barragem de Odeleite

Em Odeleite, aí sim, a EN122 até Castro Marim e depois Vila Real de Santo António. Estava concluída a jornada. Não sem antes fotografar o farol mais oriental do Algarve…

Vila Real de Santo António - Farol

Vila Real de Santo António - Farol

O ponto final seria na Ponta da Areia em Vila Real de Santo António. Uma língua de areia que acompanha a foz do rio e entra mar adentro e que é, fisicamente, o ponto final de Portugal a sudeste. Dali para a frente…ou Guadiana ou Oceano Atlântico!

Vila Real de S. António – Ponta da Areia

Vila Real de S. António – Ponta da Areia

Uma boa forma, simbólica de terminar este dia. Como costumo dizer, o que é (Estrada) Nacional é bom!

Fica esta sugestão...até porque estradas nacionais é o que não falta...aí ao Virar da Esquina para ANDAR DE MOTO!

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