Henrique Saraiva

Henrique Saraiva

Gosto de voltas e passeios de moto aqui ao pé… e mais além!

OPINIÃO - Viagens ao Virar da Esquina

Guimarães e a Lenda das Duas Caras

Cheguei a Guimarães ao início da tarde. A manhã tinha passado entre uma saída tardia e trezentos e tal quilómetros de auto-estrada. Viagem calma e confortável numa novíssima Honda CRF1100L Africa Twin Adventure Sports.

andardemoto.pt @ 16-11-2020 16:32:17 - Henrique Saraiva

A visita à cidade seria breve porque ao final da tarde tinha encontro marcado na Casa do Ribeiro. Um dos Solares de Portugal, onde iria pernoitar. E principalmente, visitá-lo e conhecer a sua história.

Guimarães, pelas ruas do seu centro histórico

Guimarães, por toda a sua história e por ser um dos locais mais visitados de Portugal, confundia-se na minha memória. Não sei se as imagens que retinha eram vividas ou simplesmente fruto de as ver inúmeras vezes publicadas. E esta constatação foi o mote para o desafio: visitar a cidade no pouco tempo disponível e fugir dos clichés.

Já sabemos: é o Berço da Nacionalidade! Aí foi proclamado o nascimento de Portugal, foi a primeira capital do País e, ainda hoje, é a residência oficial - o Paço dos Duques de Bragança - do Presidente da República quando se desloca ao Norte do País (poderemos assim dizer, nesta perspectiva, que é a nossa segunda cidade-capital).

No seu imponente Castelo, construído no séc. XII, sobre uma anterior edificação do séc. X por ordens do Conde D. Henrique que aí fixou residência com D. Teresa quando foi criado o Condado Portucalense, nasceu o nosso primeiro Rei, D. Afonso Henriques.

Foi baptizado na Igreja de S. Miguel do Castelo que fica logo abaixo - e onde é possível ver a pia baptismal onde o acto foi consagrado.
Quase ao lado fica o majestoso Paço dos Duques de Bragança (construído no Séc. XV e com arquitectura única na Península Ibérica) que hoje é museu especialmente consagrado ao período dos Descobrimentos.

Percorri o centro histórico, a caminho do Castelo e depois no regresso. Passei nas suas ruelas calcetadas, bem cuidadas e observei o bom estado de conservação das muitas casas com uma arquitectura bem característica. Tudo denota o carinho devotado à preservação da memória na Cidade- Berço (ai os clichés!).

O meu destino era o Largo da Oliveira e a história que procurava: o Guimarães das Duas Caras!

Este Largo é ponto central do Centro Histórico de Guimarães. Deve o seu nome à oliveira secular nele plantada. Num dos lados do Largo podemos ver uma curiosa construção de estilo gótico, que foi mandada construir no  reinado de D. Afonso IV e comemora a vitória na Batalha do Salado, onde os exércitos português e castelhano derrotaram o rei mouro de Granada, corria o ano de 1340.


Por trás deste fica a Igreja de Nossa Senhora de Oliveira (ou da Colegiada). Foi mandada construir por D. João I para cumprimento de um voto pela vitória em Aljubarrota. À Colegiada de Nossa Senhora da Oliveira pertenceram figuras notáveis, como Pedro Hispano, que viria a ser o Papa João XXI.

No lado oposto do Largo, fica o edifício medieval dos Paços do Concelho. E no topo da sua fachada, uma estátua curiosa: uma figura masculina que se diz representar Guimarães e que tem uma característica muito peculiar. Tem duas caras! Uma, o rosto do personagem e outra, localizada na zona do abdómen.

A razão para as duas caras? Ao certo não se sabe. Ou seja, o condimento essencial para nascer a lenda. Neste caso, várias são as “explicações”. Era o que eu procurava!

O Guimarães das Duas Caras

Das duas que vos contarei, nenhuma delas a que pareceria mais óbvia: o sentido que normalmente damos a alguém que tem duas caras (como o feijão frade, costuma dizer-se). Que aparenta ser algo que depois se vê não ser. Interpretação nada simpática para os vimaranenses, diga-se em abono da verdade. E injusta também!

Outra das interpretações para tão curiosa estatuária não deixa ficar bem vistos, desta vez, os vizinhos de Barcelos. Assim, reza a lenda que durante a batalha para a tomada de Ceuta, existiam duas frentes de combate, duas “caras”, uma da responsabilidade da guarnição de naturais de Guimarães e outra, dos homens vindos de Barcelos.

Ora segundo parece, os de Barcelos não deram conta do recado, tendo os valentes de Guimarães que cuidar da sua “cara” e ainda da “cara” dos de Barcelos. História esta que não abona muito a favor da valentia das gentes de Barcelos. Pouco simpática e, certamente, injusta.

A segunda lenda, aquela que mais gosto (quiçá pela sua inverosimilhança), está relacionada com a fatídica batalha de Alcácer Quibir (al-Kasr al-Kebir) corria o ano de 1578. A 4 de Agosto, sob o calor tórrido do deserto, o exército comandado por um D. Sebastião mal preparado mas sedento de glória, enfrenta os exércitos sarracenos. A infeliz demanda, que precipitou Portugal para uma das mais negras páginas da sua história, tinha tudo para correr mal. Um exército mal preparado, um clima hostil e um adversário sedento de vingança. E correu mal!

Consta que a dado momento da refrega, as tropas portuguesas são surpreendidas por um novo ataque do inimigo. De tal forma, a desordem e anarquia grassaram no exército de D. Sebastião, que as baixas foram imensas e a hora da derrota chegava. Nessa altura, uma tempestade de areia assola o local da batalha, ainda aumentando o caos que se vivia.

D. Sebastião, antevendo o final trágico, aproveitou para tentar escapar com vida. Com ele ficaram 7 dos nobres portugueses que o acompanharam, entre os quais um tal de Baltazar Pacheco de Alcoforado, a quem chamavam “O Guimarães” por desta cidade ser natural.

Meteram-se deserto adentro, rumo a Sul, tentando escapar daquele alvoroço sanguinário. Caminharam dias a fio, sedentos e famintos, escondendo-se quando possível do tórrido calor e avançando pelo frio da noite, porque tal era mais fácil. Mas desta vez a sorte não protegeu os audazes e a condição real já não existia. Eram apenas 8 desgraçados à procura do final daquele tormento.

A fatalidade da expedição continuava a acompanhá-los e a dado momento, tal era o desespero, que resolveram tirar às sortes qual deles se ofereceria em sacrifício com o objectivo de saciar a fome que a todos castigava. Desdita real! Foi a D. Sebastião que tocou a desdita. Não houve sangue real ou autoridade divina que o salvasse. E assim os sobreviventes puderam ter mais uma réstia de esperança.

Ironia do destino. Terminado o banquete e ainda não desfeita a digestão, eis que se aproximam da costa e vislumbram ao longe uma nau. Que só podia ser lusa, pois dos portugueses era o domínio dos mares. Acenaram com uma bandeira real que por mero acaso um tinha trazido da batalha e assim se julgaram salvos. Não sem antes jurarem que o segredo do real repasto ficaria selado entre eles e jamais seria revelado.

Mas o destino definitivamente era avesso. Depois de atravessados os mares e já com Lisboa à vista, violenta tempestade os fustiga e acaba por afundar a salvadora embarcação. Apenas um sobrevivente dá à costa, na praia de Carcavelos: o Guimarães! Que assim virou herói pois não só tinha sobrevivido ao naufrágio, como mais importante, era o único sobrevivente da trágica batalha de Alcácer Quibir!

E nunca contou o seu segredo. Bem...nunca é forma de dizer, pois fê-lo em forma de confissão, ao padre Inácio Laranjo, o que, como sabemos jamais o poderia revelar, pois o segredo da confissão é o mais forte dos segredos.

Quando o Guimarães morreu, anos depois, a população entendeu ser de justiça que se lhe fizesse uma estátua, homenagem justa a tão grande herói da sua terra. O padre Inácio ciente de toda a história mas não a podendo revelar, muito insistiu com o escultor para que a estátua representasse o herói com o seu porte altivo mas uma segunda face na zona do ventre. Sendo conhecido por algo iconoclasta, lá levou o padre a sua avante. E assim ficou a estátua do Guimarães com duas faces.

Mas não será esse o significado, o de “ter duas caras”. Apenas o de “ter o rei na barriga”!

Quem sabe qual a verdade? A verdade...é que a estátua lá está. Com duas caras, no Largo da Oliveira e no cimo da fachada do antigo edifício dos Paços Concelhios!

Assim se passou a tarde, revisitando a História de Portugal, naquilo que ela tem de mais genuíno: o local onde verdadeiramente começou, as personagens que lhe deram a primeira forma e a tão fértil imaginação para explicar aquilo que o tempo apagou.

Por falar em tempo, o dia encaminhava-se para o final e era hora de rumar à Casa do Ribeiro. Mas antes, tive que satisfazer uma curiosidade: algures li que o pôr-do-sol na Penha era um dos mais bonitos do mundo (eu li que era “o mais bonito”, mas não gosto de exageros...). Lá subi até ao Santuário de Nossa Senhora do Carmo da Penha, em estrada que de quando em vez se transforma em pista de competição de corridas automóveis (bem divertido troço de estrada, diga-se!). Também poderia ter ido de teleférico. Podia... mas não era a mesma coisa!

A afirmação estava correcta. A vista é deslumbrante e o pôr-do-sol é mesmo espectacular!

Depois de tal desfrute, rumei finalmente à Casa do Ribeiro. Situada a meia dúzia de quilómetros da urbe vimaranense, em S. Cristóvão do Selho, aguardava-me um típico solar minhoto e um acolhimento de excepção.

Na Casa do Ribeiro

Não foi difícil descobri-la (maravilhas do GPS, claro). E logo à chegada a primeira surpresa. Uma fachada branca, debruada a granito e com um portal imponente, encimado pelas armas da família. Não reparei ao início, mas vislumbra-se também a original capela. Dela falarei adiante.

Casa do Ribeiro - Fachada

Casa do Ribeiro - Fachada

Feitas as apresentações, transpus o portão de entrada e no pátio interior tive a percepção da dimensão deste solar. Segundo me foi dito pelo meu anfitrião, trata-se de um pequeno solar tipicamente minhoto, de menor dimensão do que a generalidade dos que povoam o Minho, pela simples razão que este foi passando de geração em geração sempre por linhagem feminina. No piso térreo, as antigas “lojas” de serventia à actividade agrícola (e as restantes à espera de idêntico fim), duas delas excelentemente adaptadas à sua nova função turística. Numa iria pernoitar.

Casa do Ribeiro - Pátio

Casa do Ribeiro - Pátio

A visita ao solar decorreu em dois momentos. Um primeiro, à chegada, mais breve. O outro, no dia seguinte, já com luz natural e após um belíssimo pequeno-almoço. Apesar das descrições que seguem, este é um dos casos em que as imagens valem mais do que mil palavras. Espero que as fotos façam jus à beleza do imóvel, exterior e interior.

Devo aqui salientar que tive o privilégio de ser recebido pelo casal proprietário deste Solar. E mais uma vez tive o verdadeiro testemunho do que é ser recebido nestes alojamentos: como um amigo de longa data a quem aqui se recebe pela primeira vez e a quem se faz questão de contar as histórias e as curiosidades que estas paredes encerram. De realçar ainda que, depois de um saboroso jantar, ficámos em amena conversa, numa acolhedora sala com lareira e decorada com alguns temas de caça, entre os quais um imponente busto de veado, falando claro da casa e da sua história, mas também de nós, das experiências de cada um e, naturalmente, dos dias que correm. Como amigos que se reencontram, afinal. É este o verdadeiro espírito que encontramos nos Solares de Portugal.

Casa do Ribeiro - Sala de estar

Casa do Ribeiro - Sala de estar

Voltemos à Casa do Ribeiro. A sua construção data de finais do Séc. XVII e tem permanecido na família desde então. A casa, apesar de em diferentes momentos ter sido alvo de obras de recuperação, mantém a sua traça original, a presença cuidada do mobiliário de época com que sucessivamente foi enriquecida e, naturalmente, a presença vigilante dos nobres antepassados através dos seus retratos que preenchem algumas das paredes.

Quando, vindo do pátio, entrei na porta do primeiro piso, subido que foi um dos lanços laterais das escadas de granito, deparei-me com uma linda liteira que ostenta numa das portas o brasão familiar, visível também na magnífica tapeçaria que lhe serve de cenário.

Casa do Ribeiro - Liteira

Casa do Ribeiro - Liteira

À esquerda, a entrada da bonita sala de jantar, donde depois se pode aceder às cozinhas e à parte privada da casa.


À direita, percorremos algumas salas com o mobiliário e os retratos já referidos, entre outras peças de decoração lindíssimas, e o acesso à sala da lareira que acima descrevi. É desta sala que depois temos acesso a outros quartos afectos à actividade turística.

No exterior, um alpendre em granito oferece-nos uma espectacular vista. Em primeiro plano para o magnífico e cuidado jardim em estilo francês, tendo do lado oposto uma espectacular fonte - a maior do Minho com estas características - com três estátuas que evocam as três Virtudes: Fé, Esperança e Caridade. Em segundo plano, e para lá dos limites do jardim, as vinhas, pertença da casa e que lhe asseguram a sua produção própria de vinho. Mais longe, o ribeiro que lhe dá nome e uma vista que nos leva em diversos tons de verde, até à cidade-berço.

Finalmente, a referência à original capela, de planta octogonal, tecto abobadado revestido a madeira pintada, com púlpito e uma pequena galeria. Apesar da sua pequena dimensão é muito bonita e as obras de restauro que se avizinham serão bem merecidas.

Quanto ao meu alojamento? A imagem fala por si:

Casa do Ribeiro - quarto

Casa do Ribeiro - quarto

A Casa do Ribeiro vocacionou-se para o Turismo Rural em 1984, e o meritório trabalho de conservação e principalmente de permitir que o possamos admirar e desfrutar, é totalmente dos meus simpáticos anfitriões. A Maria José e o Luís acolheram-me de uma forma que não poderei esquecer, nem sequer corresponder em gratidão. Com sinceridade posso dizer que fiquei mais rico por os conhecer. Bem-haja!

De volta a Guimarães

Terminada a estada, rumei novamente a Guimarães. Para o cafezinho matinal, para encontrar o companheiro do resto da viagem... e para voltar ao Largo da Oliveira. É verdade! Tive que voltar lá e contemplar novamente o Guimarães das Duas Caras!

Depois, foi seguir viagem...para trás ficou o Berço de Portugal! (para terminar, nada como um cliché...)

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