Henrique Saraiva

Henrique Saraiva

Gosto de voltas e passeios de moto aqui ao pé… e mais além!

OPINIÃO - Viagens ao Virar da Esquina

Em demanda de São Cucufate

"Estes Romanos são loucos"

Quem não recorda esta frase tantas vezes dita pelo Astérix, nas aventuras de resistência ao invasor romano da sua irredutível aldeia gaulesa? 

andardemoto.pt @ 14-5-2022 11:07:00 - Henrique Saraiva

Permanentemente cercada pelos legionários romanos acantonados nos acampamentos militares de Petibonvm, Lavdanvm, Babaorvm e Aqvarivm e que, cada vez que punham um pé de fora, eram valentemente sovados pelo Astérix, pelo Obélix e pelos seus companheiros animados pela poção mágica do druida Panoramix.


Tive a sorte de, no meu percurso escolar, ter tido alguns excelentes professores. Daqueles que, para além de ensinarem, me estimularam o gosto por aprender. 


Recordo um professor de História que não queria que estudássemos na véspera dos testes (entendia que o estudo deveria ter sido feito antes...). No dia anterior devíamos sim ler algo sobre História que nos divertisse e nos descontraísse para irmos à vontade para a prova. E a recomendação primeira era para lermos um livro do Astérix, por exemplo. E desde então me ficou o gosto por estas aventuras em banda desenhada magistral. 


É evidente que os romanos, esses inimigos impiedosos, são caricaturados à exaustão. Mas todas as referências estão lá. O enquadramento histórico é o correcto e apercebemo-nos das estratégias militares, das infraestruturas que construíram - estradas, pontes, termas, palácios, etc. - e das características culturais como os Romanos se relacionaram com os povos conquistados.


A que propósito vem afinal esta conversa? Porque o destino que vos apresento desta vez, são as ruínas romanas de São Cucufate (que nome mais estranho, não é?).


A CAMINHO DE SÃO CUCUFATE


Como noutra ocasião referi, uma das portas de entrada no Alentejo é Alcácer do Sal. Dali podemos divergir para sul a caminho do Algarve ou para nascente a caminho do interior. E sendo a partir daí que as viagens começam a ter interesse, nada como começar com um cafezinho matinal numa das esplanadas à beira Sado. 


Numa esplanada à beira Sado

Numa esplanada à beira Sado

Depois o rumo foi para leste. Por estradas já conhecidas. Seguimos em direcção a Montemor-o-Novo mas rapidamente inflectimos para Santa Catarina que atravessámos, em direcção a Alcáçovas.

Onde desta vez não parei no meu banco de jardim favorito (ainda faltavam alguns quilómetros para o destino e não havia tempo a perder). 

O mesmo se passou mais à frente em Viana do Alentejo.

Recordo que já vos falei nestas terras alentejanas numa outra viagem aqui descrita nas páginas da Andar de Moto: na edição nº 36 de Maio de 2021 e com o título “Já conhece Oriola?”.


Em Viana seguimos em direcção a sudeste, passámos Alvito onde virámos para uma estreita estrada municipal mas com bom piso, o CM1004. 

Deixámos a EN257 que trazíamos desde Alcáçovas e à qual voltaríamos mais adiante. Por aqui passámos em Água de Peixes e mais à frente em Albergaria dos Fusos, localidade que deu o nome à barragem que também banha Oriola (que deu o título à crónica mencionada atrás).


Logo de seguida, entrámos no espírito da herança romana em território português. Este pequeno desvio serviu para conhecermos a ponte romana sobre a Ribeira de Odivelas, também conhecida por ponte de Vila Ruiva.

Trata-se de uma antiga ponte romana, em uso até os nossos dias. Ao que tudo indica, integrava a antiga estrada romana que, de Faro e Beja, seguia para Évora e Mérida.


Apresenta várias fases construtivas. Supõe-se que a estrutura original, os três primeiros pegões feitos de granito, datem provavelmente entre o Século I a.C. e Século I.  Podem ser vistas reconstruções e obras acrescentadas, que têm data provável do século V e século XI, utilizando antigo material romano como também materiais novos da época.

Encontra-se classificada como Monumento Nacional desde 1967.


A vista atual da ponte é incompleta, pois devido ao assoreamento, 15 arcos e olhais não podem ser vistos, estando soterrados parcialmente. Tem 120 metros de comprimento, 4,9 metros de largura e uma altura máxima de 5,3 metros. A passagem sobre a ponte é feita em duas rampas de inclinação ligeira que confluem no meio e, ao longo da ponte, corre um parapeito de nível baixo.


A ponte é erguida no total sob 20 arcos, dos quais treze possuem volta perfeita com vãos de tamanhos diferentes. Intercalados nos pegões encontram-se olhais, também com vãos de tamanhos diferentes.


Para lá da beleza - não conheço nenhuma ponte romana que não se caracterize pela elegância das linhas, sendo a minha favorita a Ponte de Trajano em Chaves - o que sempre me impressiona é a idade da obra. Esta foi construída no tempo do nascimento de Cristo! Tem 2000 anos!


Retomamos a EN257 e seguimos até quase à entrada da Vidigueira onde uma placa que quase passa despercebida nos indica que devemos virar à esquerda para São Cucufate. É uma rua de sentido único que nos leva directamente ao Centro de Interpretação. 


A VILLA ROMANA DE SÃO CUCUFATE


A Villa Romana de São Cucufate, igualmente conhecida como Ruínas de Santiago, é um monumento histórico localizado na freguesia de Vila de Frades, no concelho da Vidigueira, em Portugal. 


E por estes caminhos andou José Saramago colhendo a matéria prima para a sua obra “Viagem a Portugal”. E assim escreveu, em 1981:


“Por este caminho, passando Vila Ruiva e Vila Alva, chega-se a Vila de Frades, onde nasceu Fialho de Almeida. Porém, a glória artística da terra é a vila romana de São Cucufate, a poucos quilómetros, no meio de uma paisagem de olivais e mato. Um letreiro minúsculo na beira da estrada aponta para um caminho de terra: será além. O viajante sente-se descobridor de ignotos mundos, tão recatado é o sítio e mansa a atmosfera. Em pouco tempo se chega. As ruínas são enormes, desenvolvem-se, lateralmente, em grandes frentes, e a estrutura geral, de pisos sobrepostos e robustos arcos de tijolo, mostra a importância do aglomerado.

...

Em geral as ruínas são melancólicas. Mas estas, talvez por se sentir nelas o trabalho de gente viva, e apesar dos fúnebres restos que à vista estão (nota: refere-se às escavações em curso à época em que por lá passou), acha o viajante que são um agradável lugar. É como se o tempo se tivesse comprimido; anteontem estavam aqui os romanos, ontem os frades de S. Cucufate, hoje o viajante, por pouco não se tinham encontrado todos.”


Saída da Ponte romana de Vila Ruiva

Saída da Ponte romana de Vila Ruiva

Estas são as ruínas de um complexo do período romano, composto por uma mansão, termas, um templo e uma zona de produção agrícola. 


A villa é provavelmente a maior em Portugal estando integrada na tipologia de uma villa áulica, ou seja, de dimensões e aparência monumentais, apresentando uma natureza especialmente refinada e luxuosa, até em comparação com os restantes formatos de casas de campo romanas, servindo para demonstrar o elevado estatuto de poder e de riqueza a que tinham chegado os seus proprietários. 

Com efeito, as villas áulicas são as menos comuns entre as estruturas daquele tipo na antiga Lusitânia, tendo a de São Cucufate sido talvez a única no território que produzia vinho, possuindo uma arquitectura ímpar no nosso território. 


Uma Villa (em latim), na Roma Antiga, era originalmente uma moradia rural (casa de campo) cujas edificações formavam o centro de uma propriedade agrícola. Portanto, era uma residência de campo de um patrício, de um plebeu de grandes posses, ou de uma família campestre romana, aqueles que por regra detinham as explorações agrárias de maior dimensão. 


A presença romana no local terá tido início no século I d.C. e findado nos séculos V a VI, durante as invasões bárbaras da Península Ibérica. Porém, o local continuou a ser habitado durante este período, tendo o antigo templo romano sido convertido numa basílica paleocristã.


A antiga casa romana foi mais tarde ocupada por dois mosteiros cristãos dedicados a São Cucufate, fundados em períodos diferentes, e cada um com a sua própria igreja, construídas em locais diferentes dentro das ruínas. 


De acordo com os vestígios encontrados no local, o primeiro mosteiro terá sido instalado entre os séculos IX e X, durante a época islâmica, e depois abandonado no século XII, na sequência da Reconquista. O segundo mosteiro foi estabelecido no século XIII, como parte de um programa de D. Afonso III para o repovoamento da região, tendo estado activo até aos séculos XVI ou XVII.


A igreja esteve aberta ao culto até ao século XVIII, tendo permanecido num razoável estado de conservação. Os vestígios arqueológicos foram classificados como Monumento Nacional em 1947, embora nessa altura se presumisse que correspondiam apenas ao segundo mosteiro de São Cucufate.


Ocupa uma extensa área no topo de um monte, que apesar de pouco elevado domina a planície em redor, principalmente para Sul, no sentido de Pax Julia (Beja). No período romano, este local estava afastado das povoações, mas situado perto de um importante cruzamento de vias, estando ligado por estrada àquela importante cidade no período da ocupação romana. A estrada que atrás referi quando percorremos a ponte romana de Vila Ruiva.


Uma villa romana típica tinha pelo menos duas funções, servindo como local de residência habitual ou temporária de um grande proprietário e a sua família e como centro industrial, onde se transformavam e armazenavam os produtos vindos da zona em redor. Estavam normalmente divididas em três zonas distintas: a pars urbana, onde residiam os proprietários, de forma sazonal ou permanente; a pars rustica ou parte produtiva, onde viviam e trabalhavam os servos, contando com várias estruturas de apoio, como cozinhas, armazéns e instalações para os animais; e a zona de armazenamento, muitas vezes integrada na pars rustica em vez de ser uma área autónoma. 


Este também era o caso de São Cucufate, que originalmente conjugava uma mansão palacial com um núcleo produtivo, dedicado ao processamento e armazenamento dos géneros agrícolas, principalmente vinho. Todavia, as últimas grandes obras mudaram totalmente a sua organização, passando o edifício central a concentrar não só a pars urbana mas também uma parcela da pars rustica. 

Além da casa principal e das estruturas produtivas, o conjunto romano também incluía um complexo termal, um templo, uma piscina de grandes dimensões e um espaço ajardinado. 

Em redor da villa situava-se o ager, o domínio territorial onde se situavam os recursos económicos da propriedade, como campos e florestas. Os vários edifícios das villas romanas normalmente estão reunidos em torno de um espaço central, o patium.

Esta mansão romana é na realidade composta por três edifícios, correspondentes a três fases de construção sucessivas, como acima referi, durante as quais foram demolidas as antigas estruturas, e construídas novas em cima dos alicerces das antigas. 

Assim, a casa visível é na realidade a que foi construída em último lugar, embora tenham sobrevivido vestígios dos primeiros dois edifícios, podendo as três fases ser distinguidas através das diferentes formas de construção. A segunda casa utilizava um aparelho de xisto irregular, sendo a ligação entre as alvenarias feita através de argamassa de cal, enquanto que a terceira utilizou camadas de alvenaria de xisto alternadas com fiadas de tijolo.

O sítio arqueológico conta com um centro de interpretação, já mencionado.


Como parte do processo para a valorização e divulgação das ruínas de São Cucufate, foi instalado um centro museológico na Casa do Arco, onde foi preservada parte do espólio recolhido durante os trabalhos arqueológicos, contando igualmente com um espaço polivalente, que funciona como auditório e para a realização de exposições temporárias.


O sítio arqueológico de São Cucufate tem uma grande importância para o estudo da antiga civilização romana em Portugal, tendo permitido, por exemplo, aprofundar os conhecimentos sobre a evolução da arquitectura romana, devido à presença de três fases distintas de construção. 


Também possibilitou o estudo dos sistemas de exploração dos recursos, da organização administrativa e do povoamento durante aquela época, e é de uma relevância vital para a compreensão da forma como se introduziu e desenvolveu o cristianismo em território nacional, até se tornar a religião dominante. A villa em si é considerada a estrutura deste tipo em melhores condições de conservação, não só a nível nacional como no estrangeiro.

Além disso, também é considerado de grande valor cultural para a região, devido à sua ligação ao vinho de talha, um método de produção vinícola praticado desde o período romano na região. 


A REGIÃO DA VIDIGUEIRA E O VINHO DE TALHA


Foram descobertos vestígios de vinho de talha em São Cucufate, cuja presença foi registada no dossier da candidatura do Vinho de Talha a património cultural e imaterial da UNESCO em preparação pela autarquia da Vidigueira.


O Centro Interpretativo do Vinho de Talha, em Vila de Frades, inaugurado em 2020, é dedicado àquele método de produção vinícola, incluindo a sua evolução histórica, com destaque para a antiga villa romana. Em 2013, a autarquia da Vidigueira criou um percurso temático sobre a produção vinícola no concelho, o Itinerário Cultural da Vinha de São Cucufate, que começa nas ruínas romanas.


Mas afinal o que é o Vinho de Talha?


É uma forma ancestral de produzir vinho, em ânforas de barro, utilizada pelo menos desde o tempo dos romanos como atrás se viu, e que a região da Vidigueira divulga como seu património histórico. 


Não houve desta vez tempo para explorarmos esta vertente. Oportunidade não faltará mas será conveniente que ocorra com tempo disponível, pois saborear estes néctares preciosos e depois conduzir moto pode não ser a melhor ideia...


Ainda assim, e para satisfazer a curiosidade, partilho um texto retirado de um folheto da Quinta da Pigarça, que descreve a forma de produção deste vinho:


“A vindima é feita manualmente e as uvas são escolhidas com rigor. Depois são transportadas em pequenas caixas para a adega onde são vinificadas em lotes separados ou conjuntos, dependendo do tipo de vinhos a que se destinam.


As uvas são desengassadas na sua maior parte,deixando alguns engasses inteiros para mais tarde servirem de filtro ao vinho dentro das talhas. Depois, durante cerca de três semanas, as massas têm que ser (revolvidas) mexidas duas a três vezes por dia, manualmente, com o chamado “pau romano” até a fermentação baixar a sua intensidade.


No S. Martinho (11 de Novembro), como manda a tradição, abrem-se os vinhos novos e começam as provas. Mais adiante, quando se decidem os lotes, é hora de pôr a limpo os vinhos que escorrem normalmente por uma torneira de madeira até ao fim e saem naturalmente filtrados e brilhantes pela sua passagem pelas massas.


Posteriormente retiram-se as massas, a parte sólida da uva que se extrae manualmente da talha. O vinho resultante da prensa das massas incorpora-se novamente nas talhas de argila, já a limpo onde continuará micro-oxigenando até ser engarrafado. Os vinhos têm uma quantidade mínima de sulfitos e conservam-se durante anos melhorando na garrafa.”


Espero que a descrição tenha sido convidativa. Eu achei… e ficou na mente uma visita à região da Vidigueira. Até porque tem um pão alentejano de comer e chorar por mais!


CONCLUSÃO


Esta visita a São Cucufate comprovou algo que já sabia: que os romanos estavam muito longe de serem loucos. 


O Império Romano atingiu um nível civilizacional de tal forma relevante que muito chegou até aos nossos dias. 


E não tivesse sido a Idade das Trevas, primeiro com a invasão do Império Romano do Ocidente pelas tribos bárbaras do norte da Europa e mais tarde com o belicismo da Idade Média, que constituiu um retrocesso civilizacional, certamente essa herança cultural seria muito maior. 


Na Península Ibérica, ainda assim, tivémos um período intermédio com o domínio muçulmano entre os séculos VIII e XII em que também usufruímos de uma cultura muito diferente e que contribuiu para moldar os povos que hoje somos neste território.


E agora... tal como os irredutíveis gauleses de Astérix e Obélix (não esquecendo o pequeno Ideafix), chefiados pelo altivo e corajoso Abraracourcix e tornados invencíveis pela poção mágica do druída Panoramix, o melhor mesmo é fazermos uma monumental farra... tendo o cuidado de amordaçar o bardo Assurancetourix, não vá ele querer exercitar os seus (poucos) dotes canoros! Venham de lá esses javalis...


O tradicional festim dos gauleses

O tradicional festim dos gauleses

Estes gauleses são (mesmo) loucos!!!

andardemoto.pt @ 14-5-2022 11:07:00 - Henrique Saraiva


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