Teste Aprilia Tuono V4 1100 Factory - Italiana endiabrada
Uma das melhores motos do mercado ficou ainda melhor com a chegada das suspensões eletrónicas Öhlins Smart EC 2.0. Mas a Aprilia Tuono V4 1100 Factory é muito mais do que isso! É uma italiana assombrosa e endiabrada, em que tudo parece funcionar na perfeição. Mas será que é assim tão perfeita?
andardemoto.pt @ 4-2-2020 07:30:00 - Texto: Bruno Gomes | Fotos: Luis Duarte
As
mais profundas remodelações na Tuono V4 aconteceram em 2017, em que o motor
quatro cilindros em V, o quadro, e todo um conjunto de outros detalhes foram
alvo da atenção dos engenheiros da Aprilia.
Rapidamente a Tuono V4 1100 começou a conquistar os motociclistas e jornalistas
especializados, e os comparativos com as suas mais diretas rivais davam,
tendencialmente, a vitória à Tuono. Uma moto quase perfeita, capaz de unir a
potência de uma superdesportiva com a polivalência de uma naked.
Passados dois anos a Aprilia voltou ao ataque, mas desta feita apenas para
instalar um novo conjunto de suspensões eletrónicas na versão mais exótica, a
Factory. E foi precisamente essa Tuono V4 1100 Factory que tive a oportunidade
de testar no circuito do Estoril no início do ano passado, e para minha
satisfação a Officina Moto voltou a entregar-me a chave de uma Tuono V4 Factory
para um teste em estrada.
Tal
como referi, a grande novidade na mais recente Tuono V4 Factory é a chegada das
suspensões eletrónicas, elementos de que lhe falo à parte. São assinadas pela
Öhlins, uma forquilha NIX e amortecedor traseiro TTX.
A unidade de controlo das suspensões recebe “milhões” de informações
provenientes da avançada unidade de medição de inércia, e assim as suspensões,
quando em modo semi-ativo, adaptam-se automaticamente às condições de condução
e da estrada.
O coração que bate fortemente no interior do quadro dupla trave em alumínio,
com acabamento anodizado que mais parece polido, um “look” de verdadeira moto
de competição, é o aclamado motor V4 de 1077 cc que nesta geração mais recente
da Tuono V4 debita uns bastante saudáveis 175 cv às 11.000 rpm, enquanto os 121
Nm de binário chegam às 9.000 rpm. Também atualizada, a centralina que controla
este monstro de motor permitiu aumentar o regime máximo de rotação em 500 rpm,
o que faz com que o “redline” seja agora às 13.000 rpm. Mas na realidade não
vale a pena chegar tão perto desse limite, pois o motor exprime-se melhor um
pouco mais abaixo.
Na
realidade não interessa muito onde é que o indicador das rotações está a
apontar no esbelto, ainda que algo pequeno e demasiado recheado painel de
instrumentos TFT a cores.
A Tuono V4 Factory tem uma enorme disponibilidade em quase qualquer regime
acima das 3.500 rpm, com as rotações a subirem de forma imparável, sem poços,
sem intermitências, com os 175 cv a conseguirem passar toda a sua força para a
estrada mostrando a excelente tração mecânica conseguida pelo chassis
desportivo da Tuono, que deriva da superdesportiva RSV4.
É verdade que a melhor forma de conduzirmos a Tuono V4 Factory é no limite, com
o escape a emanar uma sonoridade que mais parece que os deuses das duas rodas
decidiram soltar toda a sua fúria em cima de nós!
O V4 é viciante em termos de sonoridade, longe, bem longe do grito quase
histérico dos quatro em linha com potência semelhante, um som que certamente deixará
qualquer um apaixonado desde o primeiro momento que os pistões começam a subir
e baixar quando carregamos na ignição.
Mas ainda assim, numa condução citadina, a Tuono V4 Factory revela-se tão dócil
quanto quisermos que ela seja. Basta tocar na ignição, mesmo em andamento, e a
centralina modifica os mapas de motor entre Sport, Track e Race. Em Sport a
Tuono V4 Factory revela-se uma naked equilibrada, polida, diria até que
civilizada. Em Track o motor começa a mostrar a sua força de forma mais incisiva,
enquanto em Race o V4 parece explodir a cada rodar de punho, com a roda da
frente a deixar de estar em contacto com o asfalto, subindo facilmente.
A
principal diferença entre os modos de motor é a intervenção do efeito travão
motor, menor em Race e maior em Sport, enquanto a potência, apesar de estar
sempre disponível na sua totalidade, é entregue de forma diferenciada entre
cada modo de motor.
As ajudas eletrónicas como o controlo de tração, o anti-wheelie, o ABS com
função em curva, têm diversos níveis de intervenção, que permitem adaptar o
comporamento da moto às nossas preferências.
Por exemplo, eu gostei de ter o controlo de tração sempre em nível 2, o
anti-wheelie em nível 1 (que permite que a roda da frente levante, mas sem
fazer o “loop” total), e o ABS em nível 2, pois em nível 1 o ABS na roda
traseira é desligado. Mas com o piso molhado rapidamente alterei os parâmetros
do controlo de tração e anti-wheelie, transformando a Tuono V4 Factory numa
naked segura e domesticada.
A
direção revela-se sólida, estável, até porque a acompanhar as suspensões
eletrónicas a Aprilia instala na Tuono V4 Factory um amortecedor de direção
eletrónico, ajustável, que faz verdadeiros milagres para evitar que o guiador
bem posicionado desate a abanar de um lado para o outro.
Ainda em relação à utilização em ambiente urbano, de referir que o V4, como
motor desportivo que é, não gosta muito de andar a baixa velocidade. A
transmissão tem relações um pouco longas demais, e além disso a temperatura do
motor sobe facilmente para cima dos 90º se apanharmos trânsito mais lento.
É por isso melhor desfrutar desta italiana endiabrada numa estrada de montanha
recheada de curvas. É aí que melhor vamos perceber as diferenças nos diversos
parâmetros controlados pelo pacote eletrónico aPRC, que já vai na sua 4ª
geração.
É um sistema que não permite tantos parâmetros de ajuste como algumas rivais, como por exemplo aqueles que estarão disponíveis na nova Ducati Streetfighter V4, mas ao contrário do que muitas vezes sentimos nas eletrónicas com mais opções, o aPRC da
Aprilia é intuitivo, está melhor adaptado a uma condução em estrada, e funciona
na perfeição. Mesmo quando vemos as luzes a piscar incessantemente no painel de
instrumentos, a notar que estamos no limite da aderência, sentimos sempre que
somos nós que estamos no controlo e não a eletrónica.
Enquanto
vamos descobrindo que os travões Brembo M50 conseguem morder os discos de 330
mm de diâmetro até à exaustão, sempre com um “feeling” impecável na manete,
revelando uma progressividade assinalável e uma potência perfeitamente ao nível
do que encontramos nas melhores superdesportivas de pista, é impossível não
ficarmos impressionados com a estabilidade proporcionada pelo chassis da Aprilia.
É intuitiva como poucas motos deste segmento são, devora curvas de uma forma
assustadora de tão ágil que é, a frente não revela reações nervosas mesmo
quando exageramos com o acelerador, e a entrada em curva é suave e controlada.
A estabilidade em inclinação é soberba, sentimos perfeitamente o que está a
acontecer, o que por vezes não acontece com suspensões eletrónicas. A Tuono tem
uma ciclística extremamente equilibrada, e nada podemos apontar neste
departamento. Nota 10 em 10 para a Aprilia.
As trocas de caixa são outro dos pontos muito positivos nesta naked italiana. A
casa de Noale realizou um trabalho perfeito na afinação do “quickshift”
bidirecional que faz parte do pacote eletrónico aPRC. Só funciona acima das
4000 rpm para subir de caixa, mas é de uma precisão milimétrica, e o tato no seletor
é perfeito, suave, enquanto nas reduções mais agressivas somos brindados com um
ou outro “pop & bang” do escape e a embraiagem deslizante digere os
excessos evitando o bloquear da roda traseira na medida 200.
O
assento não é propriamente o mais confortável para percursos mais longos. É
esguio, pouco almofadado, mas suficiente para uma viagem de 200 km sem causar
incómodo. Até porque antes de chegarmos a essa distância já a luz de reserva
estará acesa! A Tuono V4 1100 Factory apresenta, facilmente, médias de consumo
na ordem dos 7 litros (ou mais se conduzirmos no “grito”), e tendo em conta que
o depósito de combustível tem 18 litros de capacidade, os 200 km são a
autonomia normal.
Mas o facto de não ser uma moto propriamente pensada para viagens não faz da
Tuono V4 Factory um martírio. Nada disso! O frontal com um design praticamente
igual ao da RSV4, e por isso uma delícia para os olhos, é largo e apesar do
ecrã pequeno, consegue proteger de forma bastante razoável o condutor, embora
os ombros fiquem sempre desprotegidos.
Apesar
de esta ser uma das minhas motos preferidas, e facilmente conseguia arranjar um
lugar na minha garagem para ela, aprendi com o tempo que nem mesmo quando estamos
apaixonados por alguma coisa isso significa que devemos fechar os olhos ou
minimizar os pontos menos bons. E a Aprilia Tuono V4 1100 Factory também os
tem!
O depósito de combustível, apesar de largo e oferecer um excelente ponto de
apoio nas travagens fortes e em curva, tem uma boca demasiado pequena. Qualquer
visita ao posto de combustível – e são frequentes! – significa que temos de
dosear bem o débito de combustível que entra no depósito. Caso contrário, somos
brindados com gasolina a salpicar por todos os lados. O que nunca é bom.
Por falar em combustível, continuo sem perceber porque é que
a Aprilia teima em não indicar no painel de instrumentos o nível de combustível?
Será assim tão complicado colocar essa informação no painel? Bom, tendo em
conta que o ecrã TFT já está tão recheado de informações diversas, imagino que
não seja fácil. Se calhar a próxima geração da Tuono V4 poderia usar um painel
de instrumentos de maiores dimensões.
Continuando nos pontos que menos gosto, tenho de referir que o joystick no
punho esquerdo e que é usado para ajustar e navegar pelos diferentes menus, não
é fácil de controlar, especialmente com luvas e em andamento.
Será habitual querermos selecionar uma determinada opção, e na realidade
acabamos por escolher outra coisa porque o joystick é demasiado sensível. E por
último, para quem gosta de conduzir à noite, a capacidade de iluminação das
óticas não é a melhor. Ou andamos sempre de máximos, ou ficamos sem ver o que
está à nossa frente.
Galeria de fotos Aprilia Tuono V4 1100 Factory
Suspensões eletrónicas Öhlins Smart EC 2.0 - O poder da eletrónica
Não
que as suspensões mecânicas convencionais que equipavam a Tuono V4 Factory
antes de 2019 fossem más. Longe disso! Mas a realidade é que as unidades
eletrónicas Öhlins Smart EC 2.0 são um nível acima do que havia, quer em termos
de performance, quer em termos de possibilidade de afinação, e trazem a Tuono
V4 1100 Factory para o topo do seu segmento.
Estas suspensões douradas foram afinadas para amestrar os mais de 170 cv do
motor italiano. Em conjunto com um chassis desportivo, as suspensões são um dos
maiores fatores que permitem conduzir a Tuono com confiança. Mas como é que
funcionam estas suspensões?
A base do sistema Smart EC 2.0 são os seus modos de funcionamento. Temos três
modos automáticos indicados pela letra A presente no painel de instrumento na
“caixa” dedicada às suspensões. E termos outros três modos manuais indicados
pela letra M. Tanto no modo A como em M existem parâmetros predefinidos em
Sport, Track ou Road.
Nos
modos manuais, quando temos M1 selecionado isso significa que as suspensões
estão no seu modo mais desportivo e apropriado para pista. Em M2 as suspensões
alteram o funcionamento para uma condução desportiva, por exemplo em percursos
de curvas numa estrada de serra. M3 por sua vez será o modo mais confortável,
para cidade ou viagem em autoestrada. Estes modos manuais permitem a afinação da
compressão e extensão de 1 a 31 “clicks”. A précarga ainda é afinada de forma
manual.
Nos modos automáticos, a centralina de controlo das suspensões adota um
funcionamento diferente. Atua sobre a compressão e extensão de forma automática
para equilibrar a moto de acordo com as condições de condução.
A lógica é semelhante à dos modos manuais, em que A1 é para condução em pista,
A2 para estrada e condução desportiva, e A3 torna a moto mais suave e
confortável. Nos modos automáticos o sistema Öhlins permite ajustar as
suspensões de acordo com até seis fatores: firmeza frente / trás, apoio em
travagem, apoio em aceleração, apoio a meio da curva e ação do amortecedor de
direção.
Assim,
afinar as suspensões é mais intuitivo, pois não precisamos de ser um guru neste
particular, apenas precisamos de saber o que queremos, qual é o comportamento
que queremos obter, e selecionar.
Para os mais “geeks”, o manual de instruções que acompanha a Tuono V4 1100
Factory será o melhor amigo durante uns tempos. Pelo menos até perceberem como
funcionam as suspensões eletrónicas. Para os que quiserem ter menos trabalho,
os modos automáticos são uma excelente opção e funcionam muito bem. Mas só
mesmo usando as afinação detalhada que permitem os modos manuais é que
poderemos sentir de facto o que este sistema nos oferece.
Veredicto Aprilia Tuono V4 1100 Factory
Estou apaixonado! O motor potente, a eletrónica evoluída e
perfeitamente adaptada a uma utilização em estrada, uma ciclística onde não
consigo apontar uma falha. Tudo isto faz com que a Tuono V4 1100 Factory esteja
no topo do seu segmento, e também no topo da minha lista de desejos.
As modificações nesta versão de 2019 podem parecer pequenas. Afinal de contas
instalar um conjunto de suspensões eletrónicas não é nada revolucionário. Mas
este era o passo que faltava para a Aprilia dotar a Tuono V4 1100 Factory dos
argumentos para enfrentar a forte concorrência no segmento powernaked.
De facto as suspensões eletrónicas são uma melhoria enorme em comparação com as
unidades mecânicas convencionais que encontrávamos na geração anterior. Não
apenas pelo comportamento desportivo e ao mesmo tempo civilizado, mas porque
estas suspensões Öhlins permitem extraír o que de melhor o chassis italiano tem
para oferecer, mesmo em estrada, o que não sendo uma surpresa para mim, foi
ainda assim uma boa nota numa moto que já se tinha mostrado eficaz e divertida
em pista.
Neste teste utilizámos os seguintes equipamentos de proteção:
Capacete – Xlite X803 Ultra Carbon
Fato – REV’IT! Akira
Luvas – Ixon RS Tempo Air
Botas – Gaerne GP1andardemoto.pt @ 4-2-2020 07:30:00 - Texto: Bruno Gomes | Fotos: Luis Duarte
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