Entrevista Paolo Ciabatti - A paixão pelas motos na base do sucesso

Paolo Ciabatti é o diretor desportivo da Ducati. Pelas suas mãos passam todos os projetos e ideias que levam o nome Ducati nas pistas do Mundial Superbike e do Mundial de Velocidade. Conversámos com Paolo sobre o que leva uma marca relativamente pequena a conseguir tanto sucesso nas pistas e na estrada.

andardemoto.pt @ 7-10-2019 10:53:44 - Texto: Bruno Gomes

O departamento de competição Ducati Corse tem como cara principal o engenheiro Gigi Dall’Igna. É ele quem vemos em grande destaque nas boxes da equipa Mission Winnow Ducati de MotoGP, e tem sido no seu mandato que a casa italiana tem sabido trazer para o mundo da competição soluções bastante inovadoras.

Mas acima de Gigi Dall’Igna, a Ducati Corse está sob a batuta de Paolo Ciabatti, provavelmente um dos homens mais ocupados atualmente dentro da marca de Borgo Panigale, dividindo os seus esforços entre o Mundial Superbike e o Mundial de Velocidade.

A convite do principal patrocinador da equipa de fábrica da Ducati em MotoGP, a Mission Winnow, o Andar de Moto esteve à conversa com o diretor desportivo da Ducati, onde procurámos saber as razões que levam a marca italiana a conseguir os sucessos que tem conseguido nas pistas.

Com um grande foco na inovação, pois só assim conseguem bater rivais com maior poderio, Paolo Ciabatti não esconde que é através de muita paixão de todos os trabalhadores da Ducati que a marca consegue também o sucesso que tem tido em termos de vendas de motos de estrada. Uma entrevista interessante que aborda temas pouco habituais e onde Paolo Ciabatti “abre o livro” sobre algumas novidades que em breve veremos na estrada.

Andar de Moto - Porque é que uma equipa de motos como a Ducati se associa a um projeto científico como a Mission Winnow?

Paolo Ciabatti - Primeiro que tudo deixa-me explicar o que é a Ducati. A Ducati é um fabricante de motos, de motos desportivas, uma empresa que nasceu em 1926. Mas na realidade começámos a produzir motos, quer dizer, apenas os motores, logo após a Segunda Guerra Mundial em 1946. Nos anos 80 a Ducati começou a competir no Mundial Superbike, e aí ganhámos muitas corridas e campeonatos, e em 2003 entrámos em MotoGP quando as regras mudaram para as quatro tempos e 990 cc.

A Ducati é uma empresa de motos relativamente pequena, diria que será de média dimensão. Produzimos cerca de 55 mil motos anualmente, por exemplo a Honda fabrica mais de 17 milhões, a Yamaha fabrica mais de 7 milhões, a Suzuki mais de 2 milhões... por isso nós somos relativamente pequenos. Em Bolonha temos cerca de 1600 pessoas a trabalhar na fábrica onde a empresa começou nos anos 20.

O que é que eu quero dizer com isto? Bom, uma empresa da nossa dimensão, seria normal pensares que não conseguimos competir contra rivais tão grandes. Somos muito mais pequenos. Mas estamos muito orgulhosos em relação aos nossos especialistas técnicos na Ducati, somos vistos como os Ferrari das motos, fazemos motos desportivas. E obtemos sucessos de vendas em todo o mundo.

Por isso para nós, competir é um desafio que se revela muito eficaz no sentido de desenvolver as nossas técnicas e tecnologias. Conseguirmos ser o único fabricante europeu que consegue bater os japoneses é um orgulho para nós, e isso só acontece porque temos como parceiros outras empresas que também procuram a inovação. A Mission Winnow tem-se revelado um parceiro extremamente vital na inovação ao nível de MotoGP, e estamos muito satisfeitos por ser parceiros deste projeto.


Andar de Moto - Porque é que muitas vezes a Ducati decide seguir um caminho tão diferente dos fabricantes rivais?

Paolo Ciabatti - Na nossa perspetiva, falando como uma empresa de motos e uma equipa de competição, a inovação é obviamente a forma como podemos competir com companhias que são muito maiores, mais fortes do que nós. Se pensarmos que podemos fazer as coisas da mesma forma que as empresas que são maiores que nós, então não vamos ter sucesso.

No nosso caso, decidimos há muito tempo que teremos uma abordagem diferente ao mundo da competição, mesmo em aspetos que foram sempre sendo negligenciados pelos nossos rivais ao longo do tempo. Nós dissemos assim “Que tal copiar a Honda?”, mas isso não funcionará. Eles conseguem fazer melhor, em maior quantidade, mais rapidamente, e são mais ricos do que nós.

Por isso sentámo-nos para pensar e descobrir o que podemos fazer para ser melhores do que eles. Por exemplo: nas motos de competição toda a gente negligenciou a aerodinâmica. Ninguém nunca se preocupou muito com isso.

Em 2014 começámos a trabalhar nas asas aerodinâmicas, quando contratámos um par de engenheiros de uma empresa automóvel. Em 2015 competimos com uma moto com asas, e depois criámos mais asas, e agora se olharem para as MotoGP toda a gente tem um pacote aerodinâmico como o nosso.

Mas durante algum tempo tivemos uma clara vantagem e temos mais experiência nisto do que os rivais. Temos a vantagem tecnológica. Nós considerámos as asas aerodinâmicas não apenas de um ponto de vista da performance, mas também para outros aspetos como uma melhor refrigeração dos radiadores ou do pneu.

Estes aspetos não estavam a ser realmente desenvolvidos pelos outros fabricantes, eles estavam a fazer motos de competição de uma forma mais convencional, e nós conseguimos dar aos nossos pilotos uma moto melhor para que consigam bater os outros pilotos de empresas maiores que nós e que têm uma experiência muito maior que nós. Por isso a inovação numa empresa como a Ducati é extremamente importante, é a chave para termos sucesso.

Andar de Moto - Conseguiriam ter os resultados desportivos que têm se não inovassem?

Paolo Ciabatti - Sem inovação num mercado tão competitivo, sem trazer nada de novo, nós não conseguimos sobreviver nem ter lucros. E sem lucros não conseguimos suportar o esforço da competição. Por isso temos de inovar sempre.

Andar de Moto -
O espírito da inovação é igual ao da vossa empresa mãe, a Audi?

Paolo Ciabatti - Como se sabe, fomos adquiridos pela Audi, ou pelo grupo Volkswagen, em 2012, e claro que fazer parte deste grupo tão grande deu à Ducati a oportunidade de ter uma força financeira maior e também mais estabilidade em termos de planear a longo prazo, pois antigamente éramos detidos por um grupo de investimento, que estava mais preocupado onde iam investir os fundos do que propriamente em como construir motos.

Obviamente que temos acesso a muitas tecnologias graças a eles, mas uma moto é um veículo tão diferente de um carro que coisas que são criadas em específico para um carro não podem ser diretamente aplicadas às nossas motos. No mundo dos automóveis existe agora o desejo dos carros conectados e dos motores elétricos.

Do nosso lado ainda estamos à espera do momento certo, estamos a estudar esses assuntos, mas estamos à espera que a tencologia nos permita ter baterias mais leves e com maior autonomia. Até porque os motociclistas continuam a gostar de motos pela paixão, pela experiência, mais do que gostarem das motos para percorrerem a distância casa-trabalho e vice-versa.

Andar de Moto - Estamos portanto ainda longe de ver uma Ducati elétrica na estrada?

Paolo Ciabatti - Não te posso adiantar muito em relação a isso. Estamos a estudar (risos). Mas teremos algumas surpresas bem interessantes em breve sobre este assunto.


Andar de Moto - Quão importante é o orçamento, o dinheiro, num empesa como a Ducati para ser disruptora, para conseguir inovar como tem feito?

Paolo Ciabatti - Obviamente que o orçamento é muito importante pois competir ao nível que estamos a competir é um exercício muito dispendioso. Claro que gostaríamos de ter um orçamento ilimitado, até porque somos basicamente uma empresa de engenheiros – embora eu não seja um engenheiro (risos) –, 80% das pessoas que trabalham no departamento de competição são engenheiros, e por isso para eles seria ótimo ter um orçamento com fundos ilimitados para poderem experimentar tudo o que pensam. Mas isto não é, obviamente, possível. Somos capazes de arranjar o dinheiro suficiente para fazer o que precisamos graças à contribuição dos nossos patrocinadores, e também porque a empresa está ter sucesso nas vendas.

Andar de Moto - Posso-te pedir alguns exemplos de como a Ducati consegue ser disruptora?

Paolo Ciabatti - Claro que há outras empresas que também são inovadoras. Mas no nosso caso, a Ducati consegue romper com os conceitos mais tradicionais por causa das pessoas que tem a trabalhar na empresa. Por exemplo no caso dos nossos trabalhandores, a grande força que está por detrás do que fazemos está na paixão de todos nós. Nós temos muita paixão pelo que fazemos. Mecânicos, engenheiros, diretores. Qualquer que seja a nossa função, temos uma paixão imensa pelo que fazemos e partilhamos um objetivo comum que é ter sucesso. Sem paixão e dedicação não conseguimos fazer o que fazemos.

Andar de Moto - Há alguma empresa, mesmo que não seja do mundo das motos, que admires?

Paolo Ciabatti - Admiro a Tesla. Eles apareceram com uma ideia inovadora, começaram a fabricar carros sem serem um fabricante automóvel. Fabricam carros elétricos de luxo sem serem um dos grandes fabricantes de automóveis. Cresceram tendo uma visão, com todos os altos e baixos que isso acarreta, e penso que o sucesso que têm agora é o resultado das ideias inovadoras que eles tiveram.

Andar de Moto - Mencionaste que a inovação no mundo da competição tem sido muito importante para a Ducati Corse. Essa inovação acaba por ser usada nos vossos modelos de produção para estrada. As asas de MotoGP, por exemplo, vão ser usadas na nova Streetfighter V4. Achas que para ter sucesso do ponto de vista comercial, e porque vender motos é o principal, é muito importante conseguirem usar o que desenvolvem na competição?

Paolo Ciabatti - De facto tocas num ponto bastante interessante. Obviamente que o que desenvolvemos para a competição permite que toda a empresa Ducati consiga crescer de um ponto de vista tecnológico. Por exemplo, os nossos engenheiros aerodinâmicos que contratámos especificamente para a competição, agora trabalham no desenvolvimento das motos de produção de forma a melhorar as nossas motos.

O design das motos agora tem muito mais cuidado do ponto de vista do conforto térmico do condutor, temos trabalhado a aerodinâmica a este nível. Foi uma coisa que encontrámos por acaso durante o desenvolvimento da aerodinâmica de competição, e não era esse o nosso objetivo. Mas tornou-se em algo que no final vai tornar as nossas motos mais confortáveis no futuro.

As asas, como disseste, começaram apenas por razões de performance, como na Panigale V4 R. Como bem dizes e como se pode ver no protótipo, a Streetfighter V4 vai usar algo parecido, mas não serão as asas que vimos no protótipo. Será algo diferente, um pacote aerodinâmico específico pois é uma naked.

Por isso é importante para a nossa marca, sendo um fabricante de motos desportivas, que o que fazemos na competição, seja nas Superbike ou no MotoGP, seja utilizado nas nossas motos de estrada. Isso é extremamente valioso para os nossos clientes. Por isso, e respondendo à tua pergunta, sim, é muito importante usarmos nas motos de estrada aquilo que desenvolvemos para as nossas motos de competição.

andardemoto.pt @ 7-10-2019 10:53:44 - Texto: Bruno Gomes


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