Henrique Saraiva

Henrique Saraiva

Gosto de voltas e passeios de moto aqui ao pé… e mais além!

OPINIÃO - Viagens ao Virar da Esquina

Para lá do virar da esquina....a lenda das duas chaves!

Entro em Chaves vindo de sul. 
Pela segunda vez em menos de 2 anos. De ambas as vezes, para no dia seguinte me lançar estrada fora e percorrer a Estrada Nacional 2.

andardemoto.pt @ 9-11-2020 22:48:10 - Henrique Saraiva

Tinha saído 2 horas antes de Guimarães e segui o percurso por auto-estrada. A 7 primeiro e depois a 24. Se na viagem anterior tinha passado por Braga e depois pela lindíssima e divertida N103 até Montalegre e daqui por estradas municipais, onde foi possível apreciar a rudeza da paisagem do planalto transmontano, desta feita percebi claramente que era oriundo do lado de cá dos montes.

Desde Guimarães, por bom piso, começamos a subir....a subir paulatinamente...e vamos ganhando altitude. A serra do Alvão, que a A7 atravessa, dá-nos a cada passo um alcance visual mais amplo, com vales profundos e verdejantes. A tranquilidade do pouco trânsito permite-nos até breves momentos de algumas desconcentração da condução e desfrutar das vistas (quase que uma visão estrábica em que o olho esquerdo aponta ao asfalto e o direito à paisagem).

Esta serra ultrapassa os 1200m de altitude e creio que não terei passado longe de tal. Magnífico sim, mas estou certo que explorar as estradas da região será ainda melhor. A ver no futuro....

Em Acqua Flaviae!

Chegado à cidade atravessada pelo Rio Tâmega renovei a sensação que já tinha. Não é cidade de excepcional beleza, talvez porque aqueles que desde há muitos séculos a habitam sempre terão preferido que ela lhes sirva em função das suas necessidades e das duras condições de vida, em detrimento de alguma beleza “para inglês ver”. Atenção! Não é uma cidade feia. Muito menos hostil. Nada disso, como tentarei descrever.

É quase plana, na maior parte arejada e com um rio aos seus pés, o que é sinal de frescura. Senti como se um espírito me dissesse: “nós estamos cá, vieste porque quiseste, ninguém te pediu que o fizesses. Mas és bem-vindo, enquanto cá estiveres és dos nossos, desfruta e quando fores, não te esqueças de nós!”.

Chaves é uma terra que tem qualquer coisa...um carácter. Personalidade. Carisma!

E voltarei sempre que puder.

É bom lembrar que a Acqua Flaviae do tempo dos romanos é muito mais antiga que a nossa própria nacionalidade e tem um dos monumentos em Portugal de que mais gosto. Remete precisamente para essa era: a Ponte de Trajano. Traz-nos o imaginário das legiões conquistadoras, da ordem imperial e da magnífica civilização, cuja queda posterior se transformou em séculos de retrocesso. E...vagamente também, a ironia dos lápis de Uderzo e Goscinny e os seus Astérix e Obélix...vagamente, porque isso é história de outras paragens.

A Ponte de Trajano, que não me canso de apreciar pela sua inegável beleza, o desenho e o equilíbrio simétrico dos seus arcos de volta redonda, foi aqui construída nos finais do Século I da era cristã. Sim, esta notável obra de engenharia tem 2 mil anos! Com cerca de 150m de comprimento, tem visíveis 12 arcos e mais 6 soterrados pelas construções que aqui ladeiam o Rio Tâmega. No meio dois marcos com inscrições da época que referem as autoridades romanas de então e o tributo às gentes (aos povos) que a ajudaram a erigir. De realçar que este foi até cerca de 1950 o principal acesso à Cidade!

A construção desta ponte foi a forma de atravessar o caudaloso Rio Tâmega na importante estrada romana, a Via Romana XVII do Itinerário de Antonino, que unia duas das mais importantes cidades do norte da Península à época do Império Romano: Astorga (Asturica Augusta) e Braga (Bracara Augusta). Veja-se a importância de ambas pois este era apenas um dos 4 itinerários que uniam essas cidades.

O outro legado desses tempos em Chaves, remete-nos para a sua designação então: Acqua Flaviae. refiro-me às termas e ao reconhecimento da valia das fontes de águas de Chaves (o termalismo era algo que os romanos conheciam e prezavam).

E uma pequena nota: A coincidência da EN2 se iniciar em Chaves (sendo que alguns percursos desta estrada recorrem a traçados da era romana também, nomeadamente o traçado por Vidago e que se destinaria à travessia do Douro na zona da Régua e depois a Lamego - Lamecum) e da sua homóloga do lado de lá da fronteira, a Ruta de la Plata, terminar precisamente em Astorga (originalmente esta Ruta vinha desde Mérida - Emérita Augusta - outra importante cidade romana. Na actualidade, por questões de marketing turístico certamente, a estrada é moderna (N-630) e vai de Sevilha a Gijon, passando por Mérida mas esquecendo Astorga...).

Sendo uma cidade ancestral, naturalmente Chaves tem muita história e património edificado que merece referência.

Depois da era romana, dos bárbaros que os substituiram (visigodos, suevos, havendo registo de ser sede de um bispado cristão) e do domínio árabe que lhes sucedeu, Chaves regressa à influência cristã no séc IX, quando o Conde Odoário a toma ao serviço dos reis das Astúrias. Em 1093, a vila de Chaves é incluída no dote de casamento de D. Teresa com o Conde D. Henrique. O seu castelo terá começado a ser edificado no Séc XIII. D. Afonso III passou-lhe foral em 1258 e a Torre de Menagem que é o que hoje resta dessa fortificação medieval terá sido concluída já no reinado de D. Dinis.

Torre de Menagem

Torre de Menagem

Os Paços do Concelho, localizados na Praça de Camões, são um bonito e elegante edifício construído na primeira metade do Séc XIX para residência do Morgado de Vilar de Perdizes. Em 1861, ainda inacabado, foi adquirido pela Câmara Municipal que termina as obras e o adequa à sua nova função.

À sua frente, na praça, está uma estátua de D. Afonso, filho legitimado de D. João I. Este veio a casar em 8/11/1401 com D. Brites, filha de D. Nuno Álvares Pereira, que como dote terá levado todas as terras a norte do Douro. O casal terá escolhido Chaves como seu local de residência e aí nasceram os seus 3 filhos. Entretanto, 11 anos mais tarde, D. Brites falece e D. Afonso retira-se para Barcelos. 

Em 1419, D. João I temendo invasão castelhana pelo norte, encarrega o filho de ir para Bragança e acautelar a defesa do reino. É então, já em 1442, que vem a nascer a Casa de Bragança, tão relevante na nossa História e que permanece até aos dias de hoje. D. Afonso foi assim o 1º Duque de Bragança (para lá de 8º Conde de Barcelos). Mais tarde regressou a Chaves onde viveu os últimos anos, tendo falecido em 1461.

Paços do Concelho e Estátua de D. Afonso

Paços do Concelho e Estátua de D. Afonso

Ainda na Praça de Camões, do outro lado dos Paços do Concelho fica a Igreja da Misericórdia. Pequena e com uma só nave, apresenta uma fachada toda em granito e tem a seus pés uma pequena escadaria.

No frontão de pedra que encima a fachada existe um nicho com uma pequena estátua da Senhora do Manto, símbolo da maior devoção para as Misericórdias, pois segundo elas “alberga sobre o seu manto todos os necessitados”.

No interior, para lá de um magnífico altar-mor em talha dourada, tem a suas paredes totalmente revestidas com painéis de azulejos do Séc XVIII que evocam passagens bíblicas.

Igreja Misericórdia

Igreja Misericórdia

A Igreja Matriz de Santa Maria Maior terá sido na sua origem, no Séc XII, um templo românico do qual ainda mantém a torre sineira e o portal com estrutura medieval. Mais tarde, no tempo de D. João III, foram acrescentados dois portais de traça renascentista.

O interior de 3 naves e grossos pilares tem um tecto de madeira (Séc. XIX). A capela-mor bem como as capelas laterais, do Santíssimo e de Santa Maria, datam do Séc XVI.

Igreja Matriz de Santa Maria Maior

Igreja Matriz de Santa Maria Maior


A Igreja de S. João de Deus, do outro lado do rio, foi construída na época de D. João V, em estilo barroco, cujo projecto é atribuído ao coronel Tomé de Távora e Abreu, engenheiro militar flaviense do primeiro quartel do século XVIII.

Existem ainda as termas romanas, o Forte e Convento de S. Francisco, o Museu de Arte Contemporânea Nadir Afonso. E naturalmente as ruas estreitas do centro histórico, bem conservadas e com casas varandadas com linha arquitectónica muito característica.

Obviamente, não poderia faltar a foto junto ao marco do km0 da Estrada Nacional 2.

Adiante voltarei a Chaves e à explicação da origem do nome. Também já referi que o objectivo da vinda até esta ponta do País é a de iniciar o percurso da Estrada Nacional 2 e portanto importava cuidar do necessário descanso.

Quinta da Mata: Um enquadramento luxuriante serve de moldura à dureza do granito e ao requinte do interior

Mais uma vez, iríamos ficar num dos alojamentos incluídos nos Solares de Portugal. Neste caso, a Quinta da Mata.

Vista panorâmica do Miradouro

Vista panorâmica do Miradouro

Situada a 3km da cidade, a meio caminho do Miradouro que, a nascente, nos proporciona uma magnífica vista sobre a cidade e todo o vale onde se situa, é uma verdejante propriedade onde a casa principal, toda em granito e originária do Séc. XVII foi estupendamente recuperada das ruínas pelos seus actuais proprietários.

A quinta fornece ainda muitos dos géneros alimentares que ali poderão ser degustados. Não foi o nosso caso. Para lá de tarde termos chegado e de madrugada partido, na altura a casa estava encerrada tendo sido um acto de cortesia e generosidade que nos tocou, o facto de abrir especificamente para esta ocasião.


Espero que as imagens lhe façam a justiça que merece. E se linda é vista do exterior, com um enquadramento espectacular, que dizer do interior?

Quanto aos anfitriões, a simpatia e disponibilidade cativou-nos. Fomos acolhidos como amigos e isso é inesquecível. Não é demais dizê-lo: a obra de reconstrução da Quinta da Mata é notável!

Vista de Chaves

Vista de Chaves

E então? Qual a origem do nome da cidade de Chaves

brasão de Chaves

brasão de Chaves

Já aqui mencionei o nome romano de Chaves: Acqua Flaviae. Mas, e como se terá chegado ao actual nome, que para mais tem reflexo na heráldica da cidade? 

Olhemos para o brasão da Cidade de Chaves: nele estão as águas (talvez o Rio Tâmega, talvez a evocação das águas termais), o ex-líbris da cidade, a Ponte de Trajano, o escudo de Portugal e...2 chaves.

Há uma explicação mais científica: que o nome “Chaves” será a evolução ao longo dos muitos séculos do “Flaviae” do nome romano. Poderá até ser. Mas nada como uma boa lenda, que para mais até explica o porquê dos dois nomes: o romano e o actual: a lenda das duas chaves.

A história passa-se na época remota do poderio romano na Península.

Nos tempos em que em Roma imperava Tito Flávio Vespasiano, as suas legiões chegaram a esta região. E aqui se foram fixando. A terra era fértil e começaram a trazer a sua civilização. Construíram estradas, pontes.

Quando aqui descobriram as "águas quentes que jorram da terra", com a devoção que tinham pela água, logo construíram aquedutos e um grande tanque para se banharem. E com rapidez descobriram os poderes curativos dessas águas.

A cidade aqui nasceu. Chamaram-lhe "Acquae" em preito a essas águas maravilhosas e "Flaviae" em homenagem ao Imperador reinante.

A importância crescente e a fama atravessaram o Império Romano e de tal forma que Tito Flávio Vespasiano nomeou seu procurador em Acqua Flaviae um seu jovem primo, Décio Flávio, que era até aí o comandante da Legião VII.

Mas, ao partir para a Península Ibérica, este deixou em Roma a sua paixão. Uma linda rapariga chamada Lúcia, filha do Cônsul Cornélio Máximo, que também lhe retribuía esse amor.

Todavia, a jovem tinha grave doença que não só lhe afectava o corpo como também lhe tinha retirado a beleza do rosto.

Décio Flávio não a esqueceu. Quando se convenceu que as águas flavienses tinham poderes curativos milagroso, enviou um mensageiro a Cornélio Máximo. Levava uma breve mensagem e uma pequena caixa. Esta continha 2 chaves. O escrito era um convite para que o Cônsul e sua filha Lúcia fossem para Acqua Flaviae, onde as águas fariam o milagre da cura. E cada uma das chaves tinha o seu significado: uma representava a saúde e a outra o amor.

Apesar de renitentes ao ínício, finalmente aceitaram o convite e demandaram as terras do norte da Península e a cidade que tinha umas águas milagrosas.

Em pouco tempo, o tratamento com os banhos nas águas fizeram o seu efeito e Lúcia recuperou a sua saúde e a sua beleza. E, já agora, também a proximidade e a possibilidade de estar perto do seu amor contribuíram para a desejada cura.

Décio Flávio conseguiu, também assim, ter ao pé de si a sua amada.

De tal forma que se comprometeram a casar quando Lúcia estivesse finalmente livre desse mal que a afligia. E assim foi!

Conservaram sempre as duas chaves, da Saúde e do Amor, e como sempre acontece nestas histórias...viveram felizes para sempre!

O significado de ambas ficou perpetuado na toponímia da cidade. A Acqua Flaviae viria muito mais tarde a chamar-se Chaves! 

Fonte Biblio MARQUES, Gentil Lendas de Portugal Lisboa, Círculo de Leitores, 1997 [1962] , p.Volume V, pp. 229-234

Não tenho dúvida nenhuma que esta história é bem mais interessante e bonita que uma qualquer evolução fonética....e explica tudo! Portanto, acreditemos nela...só porque sim!

Como disse no início, voltarei sempre que puder!

Mas era tempo de despedida. A bruma da madrugada acompanhou-nos na jornada que agora se ia iniciar.

Despedida de Chaves a caminho da EN2

Despedida de Chaves a caminho da EN2

Para trás ficava a Acqua Flaviae... ao Virar da Esquina a ANDAR DE MOTO!

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