Márcia Monteiro

Márcia Monteiro

Marketeer, “Mulher do Norte” e motociclista em estrada e fora dela (Off Road).

OPINIÃO

O que as motos nos ensinam...

Convido-o(a) a fazer um exercício comigo. Veja quem era antes de começar a andar de moto e veja em quem se tornou depois de começar a andar de moto. Não é a mesma pessoa, pois não? É incrível como o simples ato de andar num veículo de duas rodas consegue ter tanto impacto na nossa vida (e por vezes na vida de quem nos rodeia). Numa reflexão mais profunda, percebo a infinidade de transformações pelas quais passei por isso convido-o(a) a participar nesta questão: o que é que as motos lhe ensinaram?

andardemoto.pt @ 6-4-2020 17:08:41 - Márcia Monteiro

foto: Akbar Simonse

foto: Akbar Simonse

1 – A vida nunca mais é a mesma

Ainda que numa fase inicial muitas pessoas comprem uma moto porque acham divertido ou porque querem pertencer a um grupo exclusivo ou adquirir um status diferente, a verdade é que no final a opinião é unânime: andar de moto dá-nos uma sensação de liberdade, adrenalina e prazer que só quem anda de moto consegue sentir (digo apenas sentir porque explicar por vezes ainda é difícil). 

A partir do momento em que começamos a andar de moto, vivemos diferentes experiências, conhecemos outras pessoas, partilhamos histórias, participamos em convívios, conhecemos novos lugares... Muitas vezes é aqui que a rotina dá lugar a algo novo, apaixonante, empolgante e a nossa vida ganha um novo folgo. Sem dúvida que a vida nunca mais é a mesma.


2 – Ganhamos uma nova família

Quem não tem pessoas, na família de sangue, que partilhem a mesma afinidade com as motos, é nos grupos externos que muitas vezes encontra aquelas pessoas com as quais nos identificamos. Vivemos tantas aventuras juntos(as) e criamos tantas histórias hilariantes que se transformam em memórias vitalícias, que temos a certeza absoluta que queremos que, aquelas pessoas que no início apenas partilhavam a mesma paixão, passem agora a fazer parte da nossa vida para sempre. Algumas dessas pessoas tornam-se amigos(as) e outros tornam-se irmãos... sem dúvida que a partir de agora somos todos uma nova família.

3 – Tornamo-nos mais sociáveis e simpáticos

Quando vamos a caminhar na rua ou quando entramos num espaço público, não saímos por aí a distribuir abraços e beijinhos a pessoas que não conhecemos de lado nenhum. Mas quantos de nós já não saímos por aí a rolar sozinhos numa moto e numa breve paragem, encontramos outros motociclistas/motards e sem sabermos muito bem porquê, cumprimentamos como se fossem amigos? 

Quantos de nós já não nos cruzámos na estrada com outros motociclistas/motards que não conhecemos de lado nenhum e mesmo assim levantamos a mão e fazemos um aceno? É incrível a forma como nós conseguimos identificar-nos com pessoas que não conhecemos.


4 – Tornamo-nos mais prestáveis

Quando conduzimos um automóvel e assistimos a um acidente ligeiro, o mais provável é seguirmos viagem sabendo que a pessoa que sofreu o acidente ligeiro provavelmente já contactou o seguro ou o reboque. No entanto, quando assistimos a um acidente, ligeiro ou não, com um motociclista/motard, são raras as vezes que não paramos, seja para prestar auxílio, seja apenas para garantir que está tudo bem. 

Somos incapazes de deixar um(a) companheiro(a) sozinho(a). Avistar uma mota parada ou tombada na berma da estrada é um motivo mais do que suficiente para prestarmos auxílio.

5 – Andar de moto torna-se numa terapia/meditação

Quando andamos de moto desenvolvemos uma enorme capacidade de atenção ao que nos rodeia no momento presente (mindfullness) e atingimos um estado de observação e curiosidade que nos leva a reter imagens positivas e histórias memoráveis (psicologia positiva).

Como se isso não bastasse, quando estamos a conduzir de forma concentrada, utilizamos técnicas (na maioria das vezes inconscientes) para focar a mente ou o pensamento nessa atividade conseguindo assim alcançar um estado de clareza mental e emocional. É por isso que muitas vezes ouvimos dizer que quando andamos de moto não pensamos em mais nada.


6 – Tratamos a máquina por “tu”

A nossa moto passa a ser tratada como uma pessoa porque começamos a desenvolver uma relação muito próxima. Aquilo que no início era apenas um veículo, com o tempo passa a ser uma extensão do nosso ser. Acabamos por passar muito tempo juntos(as) e por isso a moto passa a ser uma “amiga”. Tratamos essa “amiga” com muito carinho e respeito e muitas vezes não olhamos a despesas quando se trata de a equipar ou reparar.

7 – Aprendemos que as estradas têm personalidade

Quanto mais andamos de moto, mais capacidade temos de perceber que cada estrada tem uma personalidade própria. É imperativo fazer uma correta leitura, estar atento(a) aos obstáculos, perceber aquilo que é ou não é um risco para nós (ou para a nosso moto) e seguir viagem sempre com cautela e atenção.


8 – Aprendemos que alguns “automóveis” também têm personalidade

Cada vez mais me convenço que existem determinados “automóveis” com personalidade própria. São muitas as vezes em que eles abrandam sem motivo (e nos obrigam às vezes a fazer paragens bruscas), circulam na faixa do meio ou mais à esquerda mesmo quando não existem outros veículos nas outras faixas e pior... não verificam sistematicamente o que se passa no exterior (algo que nos ensinam em todas as escolas de condução) e por isso fazem manobras sem sinalização (e nós que vamos atrás nem sabemos muito bem se vamos bater ou tombar), ignoram os ângulos mortos (e mais uma vez não somos vistos) ou fazem ultrapassagens demasiado próximas sem pensarem que basta um pequeno toque para irmos ao chão.

andardemoto.pt @ 6-4-2020 17:08:41 - Márcia Monteiro

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