Teste Zontes 703 F: Aventureira Racional

Com este modelo a marca chinesa do grupo Tayo Motorcycle Technology dá o salto decisivo para as motos de tipologia trail de média cilindrada. A confiança no modelo é tanta que até tem inscrito nas laterais, junto aos faróis, a designação Super Adventure. Será exagero? Venha connosco para perceber melhor.

andardemoto.pt @ 24-2-2026 07:30:00 - Texto: Pedro Pereira Fotos: Luís Duarte

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Zontes 703F | Moto | TRAIL ADVENTURE

Tem sido prática habitual dos construtores do império do meio, começar pelas baixas cilindradas, mas o objetivo final é sempre o mesmo: ir subindo gradualmente para segmentos superiores, onde se ganha mais prestígio e dinheiro.
Até há pouco tempo a Zontes estava focada em modelos de 125 e 350 cc, de várias tipologias, que a marca elenca: sport touring, naked, street, custom, scrambler e trail adventure. Mas agora está a subir a parada com a 703 F, sendo que também disponibiliza a 703 RR, que considera como Supersport e usa exatamente o mesmo motor, estando já na forja também uma cruiser.

Assim, com esta subida de escalão, a Zontes entra definitivamente nas médias cilindradas e de forma inovadora, com um motor de 3 cilindros, algo invulgar e que a marca faz questão de reforçar com a inscrição nas laterais da moto com a designação 3 L, ou seja, três cilindros em linha

A aposta nesta arquitetura demonstra grande coragem por parte da marca, ainda mais porque é de desenvolvimento próprio. Apenas a britânica Triumph e a Italiana MV Agusta oferecem um motor de 3 cilindros com características próximas, pelo que esta opção parece ser uma aproximação à exclusividade. 

De uma assentada só, a Zontes pretende atingir pelo menos três objetivos: afirmar a sua capacidade técnica, apresentar um produto diferenciado e tentar ir buscar o melhor de dois mundos, ou seja, o binário nos baixos e médios regimes, típico de uma arquitetura dos motores de dois cilindros, e os médios e altos regimes de rotação dos de quatro cilindros.

Nas especificações técnicas os resultados são convincentes: 95cv às 10.000 rpm e um binário de 76 Nm às 8.500 rpm sendo a conclusão óbvia: um motor que devora rotação! Não se trata de um motor desportivo, mas está particularmente à vontade das 7.000 rpm para cima e chega às 10.000 rpm, ou mais, com inusitada facilidade, alegria e um som a condizer. O pior são os consumos…


É um motor bem-nascido, um pouco brusco, praticamente isento de vibrações e que nos permite circular em cidade a baixíssima rotação sem queixumes, desde que não se espere que nesse caso a resposta seja imediata. Para o ser, algo muito importante em especial no off-road, o melhor mesmo é usar uma mudança abaixo ou ajudar com a embraiagem.

A caixa de velocidades é um regalo, ainda que algo ruidosa, e permite espremer todo o sumo do motor, sendo que a embraiagem é leve, modulável e muito precisa. Apenas uma nota negativa para o quickshifter, que só funciona em sentido ascensional, não permitindo reduções, revelando-se algo brusco e ruidoso, melhorando um pouco nos regimes mais altos. 


Vista de frente a Zontes 703 F é volumosa, com uma assinatura luminosa distinta e um pára-brisas elevado, regulável eletricamente, o que ainda melhora a sensação de maxi-trail, que se completa com rodas de 21” e 18” polegadas e a suspensão de longo curso. Na prática, transmite a impressão de ser uma moto com mais cilindrada.

Também a perspetiva lateral reforça essa imponência, incluindo uma ponteira de escape em posição elevada com 2 + 1 saídas, já que a superior é decorativa e não para expulsão dos gases. Pena o motor estar tão oculto.

Outro dos seus atributos Super Adventure (a classificação não é minha) é a dotação de equipamento. Tem quase tudo: ecrã TFT de 6,75 polegadas, conectividade bluetooth, duas tomadas USB, dois modos de condução (Sport e Eco), quatro modos de visualização do painel de instrumentos e controlo de tração desligável por comando dedicado. Também permite desligar o ABS na roda traseira, mas implica navegação nos menus. 

A lista continua com iluminação Full LED, quickshifter unidirecional, punhos aquecidos, jantes de raios descentrados e pneus tubeless, pára-brisas elétrico, sistema keyless, câmara dianteira e traseira, proteção de mãos com piscas integrados, suspensões totalmente reguláveis, sensor de pressão dos pneus, compartimento lateral de carga (muito útil, ainda que frágil), proteção de cárter em alumínio… um luxo!



Mesmo para quem necessitar de adicionar mais alguma coisa, os preços são interessantes: um kit de crash-bars completo custa 275€, uns faróis auxiliares 180€ e tem um preço promocional com estes extras e um kit de malas completo (laterais e topcase) incluídos, por apenas 1250€! Pode não ser um negócio da China, mas é tentador!

Claro que toda esta opulência tem um preço e nem sequer nos referimos aos competitivos 7.999€ (IVA incluído), mais ISV, IUC e despesas de documentação. O problema está no elevado peso do conjunto, mesmo recorrendo abundantemente ao alumínio. Com o depósito de 22 litros atestado, estamos a falar de 236 kg.

Esta decoração preto e cinza fica-lhe bem, embora para alguns seja demasiado tristonha, mas podem optar sempre pelos mais joviais azul e laranja, vermelho e branco ou azul e cinza. Qualquer que escolham, a verdade é que a moto tem sempre uma boa presença, além de que se conduz muito facilmente em cidade ou fora dela.

As boas sensações não são comprometidas pela jante dianteira de 21”, embora lhe retire alguma acutilância, mas o facto de estar equipada com uns ótimos Michelin Anakee Adventure, do tipo 80/20, convida a uma condução mais animada e facilmente se cede à tentação de exigir mais do motor, até em piso molhado, como tem ocorrido durante estes últimos dias de tormenta.


A posição de condução não é má, mas acabamos por conduzir com as pernas muito fletidas. Pode não ser do agrado de todos e para os mais altos, que não é o meu caso, o triângulo ergonómico (punhos, pés e traseiro) pode não resultar da melhor forma. Se o assento, algo duro, oferecesse regulação em altura, iria melhorar bastante o conforto.

O pára-brisas regulável eletricamente dá imenso jeito, mas tem uma limitação: ao ser bastante estreito acaba por proteger a zona da cabeça e pescoço, mas desvia muito vento (e chuva) para os ombros, sendo que os pequenos defletores laterais pouco ajudam. 

O/a passageiro/a tem espaço mais do que suficiente e vai bem instalado, mas conta com um assento duro e até escorregadio. Fica ainda em posição bastante mais elevada que o condutor e, portanto, mais exposto. Além disso, a suspensão traseira é dura, embora possa melhorar jogando com as respetivas afinações.

Nota ainda para os comandos que na pinha do lado direito são simples e práticos, mas não na do lado esquerdo. São 12 botões, algo confusos, ainda que com bom tato e permitindo navegar com facilidade entre os vários menus do ecrã, que apresenta imensa informação, embora lhe falte o sempre útil indicador da temperatura exterior. 



Pena os comandos não serem retroiluminados e lamenta-se a facilidade com que o dedo indicador, dentro da luva, ao acionar a embraiagem, aciona também a luz de máximos. Perdi a conta às vezes que ocorreu comigo e até fui brindado com sinais de luzes dos condutores em sentido contrário. Já a iluminação em condução noturna não merece reparos.

Resumindo, dá prazer conduzir esta Zontes, seja numa toada mais calma, seja em momentos de inspiração em que não resistimos à tentação de ir em busca da cavalaria e ela está lá toda. Os travões ByBre ajudam quando é preciso parar e não são nada bruscos; são antes muito progressivos. 

Para uma moto de perfil trail e que deseja conquistar alguns aventureiros que a usam fora do asfalto, nem que seja nalguns estradões e pouco mais, não lhe faltam predicados, mas nem tudo é perfeito.

A posição de condução em pé é adequada, conseguimos apoiar os joelhos no depósito, o guiador tem boa pega, mas podia estar um pouco mais alto. Além disso as jantes de 21” e 18” polegadas permitem um leque enorme de pneus, a altura ao solo é razoável, ambas as suspensões Marzocchi são multi-ajustáveis, a proteção de cárter é efetiva e até a eletrónica ajuda.


Porém, há aspetos que, no conjunto, não funcionam tão bem. Os poisa-pés podem ser trocados por uns mais largos e o guarda-lamas, para um pneu de tacos, tem pouca altura livre. Também o assento é demasiado desnivelado de série (devia ser mais plano), mas a marca já deve ter pensado numa alternativa.

As proteções de mãos com os piscas integrados aparentam ser frágeis em caso de queda e para as trocar por umas mais robustas… ficamos sem piscas! Por outro lado, abaixo do radiador existe um outro permutador de calor específico para o óleo (oil cooler) que fica muito exposto. Também o peso elevado do conjunto não facilita e o centro de gravidade está muito alto.

Em suma, a marca pode seguir o exemplo de algumas das suas concorrentes: manter esta versão e lançar uma mais hardcore, com superiores credenciais para o off-road, alargando ainda mais o potencial leque de interessados no modelo.

Com esta 703 F a Zontes tem o essencial para singrar e já se encontram algumas em circulação. Tem os requisitos essenciais para que se comecem a ver mais no futuro, numa altura em que as motos de perfil aventureiro dominam o mercado. Acaba por ter uma forte componente racional, com um motor mais emotivo, conciliando muito bem as duas dimensões.



Em termos de custos de utilização nem tudo são rosas, com consumos reais a rondar os 6 litros, sem grandes exageros (é possível que melhore com mais km). O IUC no segundo escalão mais elevado (63,62 €) não assusta, mas as revisões a cada 5.000 km preocupam o bolso e o ambiente. Ao menos o Manual do Proprietário (em Português, embora a tradução deixe muito a desejar) refere que a verificação da folga de válvulas deve ser feita a cada 40.000 km.

Por fim, ainda uma nota de destaque para o entusiasmante som do motor e do escape, mais ainda numa altura em que a normativa Euro 5+ nos vai roubando essa melodia e faz com que os motores trabalhem com uma mistura mais pobre, libertando mais calor. Aliás, este modelo confirma isso mesmo, sendo que a ventilação dispara facilmente, mesmo considerando que as temperaturas a que o teste foi realizado eram bastante baixas. Veremos como será em pleno verão. 


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Zontes 703F | Moto | TRAIL ADVENTURE

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