Márcia Monteiro

Márcia Monteiro

Marketeer, “Mulher do Norte” e motociclista em estrada e fora dela (Off Road).

OPINIÃO

Quanto mais doer... mais eu gosto!

Todos os praticantes das modalidades de enduro, motocross e offroad, sabem que este é um desporto/atividade bastante exigente, quer a nível físico, quer a nível psicológico...

andardemoto.pt @ 19-4-2020 22:52:54 - Márcia Monteiro

1 – Resistência e força física

.Não é por acaso que a mítica prova do Dakar é considerada uma das provas mais difíceis e perigosas do mundo, não só ao nível do motociclismo, mas também ao nível de outros desportos que nada têm a ver com as duas rodas. Para quem pratica este desporto, mesmo como um hobbie, sabe que:

Vai ser precisa muita resistência, muita força física e um bom “kit de unhas” porque convenhamos que segurar uma moto que mais parece ter vida própria em terrenos pouco ou nada regulares, não é tarefa fácil. Já para não falar daquelas alturas em que, sem querermos obviamente, enterramos a moto na areia ou num grande lago de lama e temos que a tirar de lá a peso. Agora imaginem quando temos o azar de estarmos sozinhos nesse momento e temos de puxar mais de 130kg... quando não são mais.

2 – Músculos

Até nos passeios mais curtos, convém que estejamos preparados... sim, vão doer os músculos. Todos eles. Nas pernas, nos braços, no abdómen... e vejam só, até vão descobrir que têm músculos que nem sabiam que existiam.

3 – Condições climatéricas

Aqui não importa se está chuva ou se está calor. Se é para ir, vamos. Se estiver a chover, mais vale mentalizarmo-nos que vamos andar todo o dia molhados (aiii os meus ricos pezinhos). Se estiver sol e calor, sem dúvida que passaremos todo o dia a transpirar e com sorte (ou azar), com muito pó colado ao rosto e à boca. E quando eu digo pó, não é um pó qualquer. São nuvens de pó que nos tiram completamente a visibilidade. Preparem-se porque da próxima vez que assoarem o nariz, é muito provável que o lenço fique castanho.

4 – Fome

Vão sentir fome, especialmente naqueles passeios longos por entre serras, trialeiras ou planícies, longe da civilização ou de qualquer café à beira da estrada. Há quem leve pequenas marmitas, uma sandes ou até umas barras energéticas, mas tendo em conta a especificidade do desporto/atividade em si, não convém que a mala ou a “camel bag” vá demasiado pesada por isso vão chegar a uma altura do dia em que já não vão ter nada para comer.


5 – Sede

Muiiiita sede porque quanto mais exigente for o percurso, mais água vão querer beber. E tal como acontece com a comida, não existe nenhum café à beira da estrada (porque não andamos na estrada) por isso o melhor é racionar a quantidade de água que bebem ao longo do dia.

6 – Gasolina

Quantos destes desportistas/praticantes não ficaram apeados? Pois é... quase todos eles. Por muito que estejamos a controlar o nível de gasolina, há imprevistos que acontecem. Às vezes perdemos demasiado tempo no trilho ou simplesmente perdemo-nos do trilho e somos forçados a percorrer mais km do que estava previsto. E mais uma vez, como não há um café nem uma bomba de gasolina à beira da estrada (porque não andamos na estrada), ficamos apeados. Um depósito extra pode ser uma solução. Ou um amigo que nos safe.

7 – Xixi

Este é um aspeto que só as mulheres vão compreender e acreditem que é nestas alturas em que eu desejava ter uma pilinha (vá, não gozem). Para quem não sabe, este é um desporto/atividade que exige muito equipamento. Para além do fato normal que está à vista de todos nós, existe um vasto conjunto de acessórios por baixo dessa roupa toda: caneleiras, joelheiras, cotoveleiras, colete (alguns até usam colete integral), cervical, etc... Quando estamos vestidos e totalmente equipados, podemos perder alguma mobilidade. No caso das mulheres, é muito complicado baixar as calças quando por baixo das mesmas temos os acessórios... elas simplesmente não baixam. Das duas uma: ou tiramos o equipamento todo (no meio de um passeio é um desperdício de tempo) ou fazemos mil e uma manobras para conseguir baixar as calças e dobrar as pernas com as calças a meio das pernas e com o equipamento por baixo. Eu bem vos disse que era difícil.

8 – Avarias

É o pão nosso de cada dia de todos aqueles que praticam este desporto/atividade. Basta uma simples queda (que normalmente acontece com muita frequência) para partirmos alguma peça e ficarmos com a mota avariada. Vamos rezar para que isso não aconteça no cimo de uma serra sem acessos. Uma pequena mala de ferramentas pode ser uma grande ajuda, mas infelizmente existem avarias mais complexas que só podem ser solucionadas numa oficina de reparação.


9 – Quedas

Mais um pão nosso de cada dia... cair faz parte. Se não gostam de lamber o chão, então definitivamente isto não é para vocês. Para quem anda, sim, vão cair, vão cair muitas vezes (só esperamos que sejam quedas ligeiras).E dessas quedas resultam hematomas, arranhões e às vezes até ossos partidos. Por isso, andar com as pernas pisadas, é perfeitamente normal.

10 – Calos

Querem saber se alguém pratica este desporto/atividade? Olhem para as mãos... os calos não mentem.

11 – Força psicológica

Este tipo de força será exigido em passeios ou provas muito exigentes, seja por causa do percurso, da técnica ou pela quantidade de km. Quase todos nós que praticamos este desporto/atividade já desejamos, pelo menos uma vez na nossa vida, desistir. Ou porque estamos cansados, ou porque caímos e magoamo-nos, ou porque o percurso é demasiado longo... e todas estas justificações são válidas. É aqui que entra a nossa força psicológica que contra tudo e contra todos, nos leva até ao final do percurso/meta.

Mas então... se dói assim tanto, porque continuamos a andar?

Porque este desporto/atividade leva-nos a lugares onde jamais conseguiríamos ir... nem a pé, nem de carro. Temos a oportunidade de conhecer lugares incríveis. A maior parte das vezes estamos em perfeita comunhão com a natureza. E é maravilhoso. O facto de estarmos sujeitos à dor, ao pó e à água torna-nos muito mais resistentes em termos físicos. Já para não falar que a exigência muscular, a força e a resistência estão sempre a trabalhar. No que toca à parte psicológica... existem percursos muito exigentes, muito duros e existem provas/passeios que nos fazem querer desistir a qualquer momento. Somos postos à prova constantemente. Mas só um espírito resiliente e lutador, consegue avançar. Nada se compara à felicidade e à força emocional que adquirimos depois de provarmos a nós próprios que “sim, eu fui capaz, eu consegui” e normalmente esta força aplica-se não só na prática deste desporto/atividade, como também em outras esferas da nossa vida.

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