Márcia Monteiro

Márcia Monteiro

Marketeer, “Mulher do Norte” e motociclista em estrada e fora dela (Off Road).

OPINIÃO

N222: Da Costa à Fronteira – Parte II

É chegado o momento de partilhar consigo a segunda parte da minha aventura a solo em 2 rodas, de mochila às costas pela N222, na travessia que intitulei de “N222: Da Costa à Fronteira”. Ainda antes de avançar, gostaria de relembrar que é possível percorrer a N222 em apenas 1 dia, dado que a sua extensão é de cerca de 226 km. No entanto, para desfrutar verdadeiramente da viagem, aconselho 3 dias. Outra recomendação é para não se deixar intimidar pela tipologia da moto que possui. A estrada está em ótimas condições e, portanto, haja vontade que o resto faz-se.

andardemoto.pt @ 25-4-2022 09:30:00 - Márcia Monteiro

Depois do merecido descanso no Peso da Régua, era chegado o momento de voltar a colocar as luvas, o capacete e seguir viagem. Fiz um pequeno desvio para matar saudades de Pinhão e logo em seguida avancei para São João da Pesqueira. Km após km, a paisagem ia mudando gradualmente e as encostas iam ficando cada vez mais íngremes. Ao longo da travessia cumprimentei muitos motociclistas e posso dizer que fiz partes do trajeto “acompanhada” literalmente. Um simpático casal de portugueses, depois um espanhol e também um italiano. Nas paragens de descanso, até os camionistas. Não lhes conheço os nomes nem tão pouco para onde iam, detetava a nacionalidade pelas matrículas e bastava um aceno, um sorriso ou um gesto do tipo “bora vamos lá” que sentia logo um alento. É um código que só quem anda de moto entende… e é tão mágico.

Parei a moto para registar algumas memórias fotográficas e por ali fiquei a contemplar a beleza das encostas cobertas de vinhas geograficamente bem distribuídas. Olhei para o céu e o sol ainda estava alto, mas eu ainda tinha muitos km para percorrer por isso segui viagem em direção a Vila Nova de Foz Côa. Ao contrário do que muitas pessoas pensam, a N222 não termina em Foz Côa mas sim em Almendra, por isso ainda havia muito caminho para percorrer… no ar sentia-se o cheiro a uvas e em algumas zonas o aroma era tão intenso que nem precisava tirar o capacete para o sentir. No percurso via cada vez menos pessoas, cada vez menos automóveis e cada vez menos motos. Pela primeira vez senti que estava de facto sozinha a fazer a parte final da N222. Na verdade, sozinha não é bem a palavra que eu gosto de usar porque quando aprendemos a desfrutar da nossa própria companhia, nunca estamos verdadeiramente sozinhos. É por isso que é tão importante fazermos a distinção entre solidão e solitude. Solidão é um estado de isolamento imposto que provoca dor emocional. Solitude é um estado de isolamento por vontade própria que causa bem estar.

Fiz mais algumas paragens, desfrutei de um café em Vila Nova de Foz Côa, visitei o Castelo Melhor e cheguei ao final da N222 na pequena aldeia histórica de Almendra mesmo na altura em que o sol se estava a pôr. Na minha cabeça aquilo não era mera coincidência. Sentia algo como “missão cumprida” e aquela era a celebração do meu momento de solitude. Foram mais de 200 km por uma das estradas mais belas do mundo. Confesso que não contava chegar ao final do dia mas foi impossível não parar dezenas de vezes para contemplar as paisagens de cortar a respiração. O Universo sabe sempre o que faz e por isso presenteou-me com aquele pôr do sol incrível. Dou assim por terminada a minha aventura a solo pela N222 - “Da Costa à Fronteira”. Mas será que foi mesmo até à fronteira? Entreguei os planos ao Universo e pedi à vida para me surpreender... eu e a minha moto seguimos juntas pela noite dentro, apenas com a lua a iluminar-nos em direção a Espanha.


Espero que tenha gostado e que esta leitura o (a) inspire a fazer mais vezes aquilo que o (a) faz feliz.

Ler também:

N222: Da Costa à Fronteira – Parte I

andardemoto.pt @ 25-4-2022 09:30:00 - Márcia Monteiro


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