Adelina Graça

Adelina Graça

Duas rodas, duas asas

OPINIÃO

Serra “pouco” Nevada

Pneus novinhos e uma expectativa imensa para a entrada na serra. De manhã, bem cedinho, lá fui ao encontro da “rodas grandes” que me aguardava, gloriosa. De calçado novo e pronta para a aventura.

andardemoto.pt @ 30-7-2022 18:49:18 - Adelina Graça

Está de carregar malas, cada vez mais pesadas, e arrancar. A estrada vai tornando-se cada vez mais redonda e a cada nova curva vou experimentando o calçado novo. Aos poucos, vai perdendo a goma. Publicidade à parte, estes Pirelli Scorpion são uma maravilha.

As curvas, vão-se contorcendo por entre a montanha que se torna mais austera, o precipício que me acompanha do lado direito é um deslumbre para a vista e para a alma, com um misto de escarpas de rocha e o mar Mediterrânio que, de quando em vez, espreita por entre os cumes.

Vou-me cruzando com tantos outros apaixonados pelas duas rodas, cujo sorriso estampado no rosto faz parte da sensação inexplicável que é andar de moto pela montanha, com um dia de sol brilhante e o mar ao fundo, a felicidade não se explica, antes, sente-se!

Com uma valsa interminável vou balançando e, de quando em vez, lá vão surgindo as pequenas localidades que se apinham de turistas e de autocarros, com os souvenirs dependurados por todo o lado, aos quais lá vou resistindo porque, na verdade, a melhor recordação que podemos levar é o coração cheio de aventuras.

A cada nova curva que passa vou enchendo o peito de ar, como se quisesse aspirar um pouco da montanha, para que ela se funda com a nossa paz interior e percorra as imagens que nos vão passando pela cabeça e pelo coração.

O calor vai subindo a cada quilómetro, até se tornar verdadeiramente desafiante.

Andar de moto é um prazer absoluto, mas também exigente! Uma das coisas que nunca nos devemos esquecer é de tratar do corpo, mesmo que a alma já transborde de felicidade. Por isso, levo sempre água à mão, imaginem o que é andar pela montanha com 30 graus de calor e sem água, não arrisquem.

Chegada a hora de alimentar o corpo, parei junto de uma sombra, com um daqueles precipícios de vista infindável, procurei uma pedra onde me sentar, montei a marmita sobre os joelhos e comi uma coisa qualquer que, como podem imaginar, provavelmente saberá melhor que caviar num desses restaurantes “apapilompados”.

A paz preenche-me o peito, o calor, o chilrear dos pássaros, a vista sobre as montanhas, a “rodas altas” ali ao lado, parada e a emitir ondas de calor que se propagam, e os amigos de sempre, que vão passando nas suas montadas e que apitam, num cumprimento cúmplice e de sorriso no rosto, dedos em V e um coração cheio de aventuras.

Almoço feito, lá arranco novamente montanha fora, de volta às curvas. Cada vez mais feita aos pneus, vou abusando da valsa sobre a imensidão.  

Depois de tantos quilómetros o corpo já pede descanso. Encontro um pequeno hostel no meio da montanha, fico já aqui!


De acesso difícil, uma vez que ficava a meia encosta, lá consegui parar a “rodas altas” em segurança.

UAUUUUUU, que vista! O hostel, modesto, mas muito bonito, imaginem, com uma piscina pendurada na montanha.

A proprietária, uma inglesa muito simpática, chega-se a mim e pergunta, num tom meio surpreendido, meio intrigado. Vieste nesta moto?

Sim!

UAUUUUU, num ápice abraçava-me com um misto de admiração e surpresa, misturado com histórias infindáveis da sua passagem por terras dos Algarves.

Eu, por sua vez, contava-lhe um pouco de mim, de olho na piscina que me estava a torturar, com um espelho de prata que refletia a luz do sol e da montanha infindável.

Num ápice, com o apoio da encantadora inglesa, levámos as malas para o quarto, talvez um pouco mais rápido que a troca de pneus de um Formula 1, já eu tinha o fato de banho vestido.

O salto para aquela deslumbrante piscina depois das sensações que tinha sentido naquele dia é algo que não consigo explicar. A água fresca sobre o corpo massacrado pelo calor do dia, com as emoções que já não tinham espaço num coração cheio, é algo que nos fica marcado para sempre.

A pequena coluna de som na beira da piscina ia soltando as notas que me vão acompanhando ao longo da viagem.

Depois da frescura da piscina, fui deitar-me sobre a espreguiçadeira e deixar-me adormecer sob um sol quente e brilhante, deixando as emoções inundar os sonhos.

O quarto, de paredes toscas, tinha um terraço com a expectável paisagem maravilhosa, tinha também uma pequena mesa de refeições onde jantei o resto que ainda trazia nas malas e ali fiquei, a olhar o infinito. A paz daquele momento torna-se na tua companhia que, aos poucos, se tornou picante…

Nunca discriminei qualquer tipo de mota, sou eternamente apaixonada por todas, até pelas vespas! Menos as que têm asas!

Raio das bichas cujo espaço, entendo, era delas muito antes de eu ter chegado, juntaram-se ao banquete. Bem, tudo tem o seu espaço, e eu, cansada que estava, lá as deixei no seu voo açambarcador e fui descansar os ossos, deixei-me adormecer sobre um manto de emoções que nos fazem pensar, é tão bom viver momentos como aquele!


Maio 2022

andardemoto.pt @ 30-7-2022 18:49:18 - Adelina Graça


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